{"id":3121,"date":"2020-03-18T23:37:44","date_gmt":"2020-03-18T23:37:44","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/?p=3121"},"modified":"2020-03-19T00:04:53","modified_gmt":"2020-03-19T00:04:53","slug":"o-mundo-antes-do-disparo-2018","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/o-mundo-antes-do-disparo-2018\/","title":{"rendered":"O mundo antes do disparo &#8211; 2018"},"content":{"rendered":"<h4>por Luisa Duarte<\/h4>\n<p>Quando vi pela primeira vez as esculturas de Raul Mour\u00e3o nas quais os seus conhecidos <em>Balan\u00e7os<\/em> se equilibravam sobre diferentes garrafas de vidro vazias, foi como se me deparasse com uma esp\u00e9cie de estranho familiar. A garrafa desempenhava ali o papel de um intruso em territ\u00f3rio conhecido. As esculturas geom\u00e9tricas constru\u00eddas somente em a\u00e7o traziam, inesperadamente, um \u00edndice da vida mundana com sua temperatura pr\u00f3pria e uma fragilidade at\u00e9 ent\u00e3o inaudita. Tal gesto, aos meus olhos, instaurava uma nova perspectiva de significados para um procedimento j\u00e1 conhecido da produ\u00e7\u00e3o do artista, ou seja, estava forjado um estado de estranhamento dentro de uma situa\u00e7\u00e3o familiar.<\/p>\n<p>Sabemos que nos <em>Balan\u00e7os<\/em>, feitos somente com a\u00e7o, a pot\u00eancia est\u00e1 dada pela jun\u00e7\u00e3o improv\u00e1vel entre peso e leveza, na qual a rigidez do material \u00e9 contaminada pela vibra\u00e7\u00e3o l\u00fadica do movimento. Como j\u00e1 foi observado, tal encontro de contr\u00e1rios tem como uma das causas o fato de tais esculturas surgirem de desenhos de Raul. Ou seja, na g\u00eanese dessas obras, t\u00e3o seguras e altivas, encontra-se um tra\u00e7o ensa\u00edstico, imprevis\u00edvel, amigo do risco. \u00c9 dessa insuspeitada irmandade entre opostos que ascende boa parte da for\u00e7a desses trabalhos.<\/p>\n<p>Essa po\u00e9tica calcada em constantes fric\u00e7\u00f5es encontra um momento \u00edmpar no v\u00eddeo <em>Bang Bang<\/em> (2017). Ao longo de seis minutos, seis diferentes esculturas forjadas por essa combina\u00e7\u00e3o de elementos \u2013 a geometria em a\u00e7o e a garrafa de vidro \u2013 t\u00eam a sua parte mais fr\u00e1gil alvejada por um tiro certeiro. N\u00e3o sabemos de onde parte o ataque. Uma, duas, tr\u00eas, quatro, cinco, seis obras t\u00eam a sua base estilha\u00e7ada. Ou seja, n\u00e3o interessa aqui o aniquilamento de um trabalho espec\u00edfico, mas sim nos \u00e9 dado a pensar qual o sentido das sucessivas repeti\u00e7\u00f5es de um mesmo tipo de golpe.<\/p>\n<p>Ao incorporar a arma de fogo como parte da obra, o tema da viol\u00eancia volta \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do artista. Lembremos que Raul realizou, ao longo de v\u00e1rios anos, in\u00fameros trabalhos que faziam remiss\u00e3o direta \u00e0s grades que povoam os centros urbanos, aludindo assim a uma visualidade que encarna o medo da viol\u00eancia nas grandes cidades do pa\u00eds. Nas palavras de Paulo Herkenhoff, essas esculturas em a\u00e7o, realizadas a partir de 2001, tratavam da \u201cgeometria do medo em contexto hist\u00f3rico preciso\u201d.<\/p>\n<p>Raul pensa e realiza <em>Bang Bang<\/em> \u00e0 luz dos acontecimentos de 2017, quando a arte contempor\u00e2nea brasileira se tornou alvo da sanha fascista que assola o Brasil, nos fazendo testemunhar in\u00fameros casos de censura \u00e0 liberdade de express\u00e3o.<sup>1<\/sup> O v\u00eddeo pode ser lido, portanto, como uma resposta ao momento no qual a arte se tornou alvo de for\u00e7as violentas. Mas, note-se, <em>Bang Bang<\/em> jamais ilustra tal situa\u00e7\u00e3o, o que o tornaria panflet\u00e1rio.<\/p>\n<p>Antes instaura um acontecimento po\u00e9tico marcado pela concis\u00e3o. A garrafa, a forma geom\u00e9trica em a\u00e7o, o registro cin\u00e9tico ali investido que coloca tudo em um equil\u00edbrio t\u00eanue: o artista cria uma cena a um s\u00f3 tempo l\u00fadica e rigorosa, afetiva e s\u00f3bria, delicada e tesa. Esp\u00e9cie de ampulheta que conta um tempo que pode, a qualquer momento, se romper. Encontro de opostos: as garrafas vazias plenas de mem\u00f3rias que trazem in\u00fameras possibilidades narrativas e as formas geom\u00e9tricas met\u00e1licas fechadas em si mesmas.<\/p>\n<p>Os ataques impetrados contra cada garrafa, exibidos em c\u00e2mera lenta,  anunciam um tempo sem tr\u00e9gua, o estilha\u00e7amento de um equil\u00edbrio (im)poss\u00edvel. Afinal, os ataques direcionados ao campo da arte n\u00e3o foram permeados por algum grau de elabora\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, mas antes se caracterizavam por uma vontade de completo silenciamento \u2013 aniquilamento mesmo \u2013 do discurso do outro, do diferente. Ou seja, o tiro certeiro cujo autor \u00e9 an\u00f4nimo de <em>Bang Bang<\/em> emula, justamente, essa rela\u00e7\u00e3o privada de todo e qualquer esfor\u00e7o de reflex\u00e3o e di\u00e1logo.<\/p>\n<p>Se pausamos o v\u00eddeo em 24 segundos, um \u00e1timo antes do primeiro disparo, somente a trilha sonora pode evocar que algo grave e inconcili\u00e1vel est\u00e1 por vir. Pois a escultura de Raul nada mais \u00e9 do que a prova da chance de uma pot\u00eancia oriunda do encontro de opostos. Essa enuncia\u00e7\u00e3o visual de um equil\u00edbrio poss\u00edvel entre diferentes \u2013 as formas geom\u00e9tricas universais e a gambiarra instaurada pelas garrafas vazias \u2013 e a beleza dali derivada \u00e9 a prova de que, no territ\u00f3rio da arte, \u00e9 tecida a chance de inaugurarmos, diariamente, aquilo que no chamado mundo real por vezes nos parece invi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Enquanto l\u00e1 fora tudo parece inconcili\u00e1vel, guerra entre surdos, o artista edifica uma alegoria sobre esses tempos sombrios valendo-se daquilo que faz melhor: uma tradu\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia da vida orientada pela dist\u00e2ncia cr\u00edtica que n\u00e3o permite que a tradu\u00e7\u00e3o caia no mero gesto ilustrativo. Ou seja, o seu <em>Bang Bang<\/em> versa, sim, sobre a viol\u00eancia infligida contra a arte, mas tamb\u00e9m \u00e9, a um s\u00f3 tempo, um atestado de resist\u00eancia da arte. Prova da sua capacidade de nos endere\u00e7ar, em meio a um bang bang sem perspectiva de fim, o an\u00fancio de um equil\u00edbrio poss\u00edvel no qual a pot\u00eancia do vivo se d\u00e1, justamente, no encontro calcado pelo encontro entre diferentes. Se a realidade nos lan\u00e7a em um niilismo paralisante, a arte ainda pode salvaguardar a nossa capacidade de imaginar outro mundo poss\u00edvel, mais pr\u00f3ximo daquele evocado pela obra de Raul Mour\u00e3o antes de cada disparo.<\/p>\n<p><small><sup>1<\/sup> Em 2017, uma s\u00e9rie de exposi\u00e7\u00f5es foram alvo de censura no Brasil. Para maiores detalhes sobre esse assunto, veja o dossi\u00ea (ingl\u00eas) <a href=\"http:\/\/www.jacarandamagazine.com\/?page_id=65\" class=\"broken_link\"><u>\u201cBrazilian art under attack\u201d. Jacaranda, n. 6<\/u><\/a>.<\/small><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Luisa Duarte Quando vi pela primeira vez as esculturas de Raul Mour\u00e3o nas quais os seus conhecidos Balan\u00e7os se equilibravam sobre diferentes garrafas de vidro vazias, foi como se me deparasse com uma esp\u00e9cie de estranho familiar. A garrafa desempenhava ali o papel de um intruso em territ\u00f3rio conhecido. 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