{"id":3108,"date":"2020-03-18T23:04:10","date_gmt":"2020-03-18T23:04:10","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/?p=3108"},"modified":"2020-03-18T23:21:12","modified_gmt":"2020-03-18T23:21:12","slug":"bala-perdida-2018","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/bala-perdida-2018\/","title":{"rendered":"Bala perdida &#8211; 2018"},"content":{"rendered":"<h4>por Guilherme Gutman<\/p>\n<\/h4>\n<h4>Bala perdida.<\/p>\n<p>ou<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o admitir, em nenhum caso, a poesia\u201d<sup>1<\/sup> ou<br \/>\n<br \/>\nDesde que existe arte, existe o desejo de destruir arte.<\/p>\n<p>Sobre um filme de Raul Mour\u00e3o.<\/h4>\n<p>A espera pelo que est\u00e1 por acontecer \u00e9 t\u00e3o ou mais angustiante do que quando o tiro parte. J\u00e1 ent\u00e3o sem o benef\u00edcio da d\u00favida, h\u00e1 um conforto estranho em se saber que o ato tragic\u00f4mico,<sup>2<\/sup> inelutavelmente, j\u00e1 aconteceu.<\/p>\n<p>Sem que se saiba de onde vem o tiro, o temor maior \u2013 ic\u00f4nico \u2013 \u00e9 o de que a bala seja mais r\u00e1pida do que a c\u00e2mera.<\/p>\n<p>A espera pelo que vai acontecer \u00e9 muito longa; ainda que n\u00e3o o seja, j\u00e1 que o seu tempo foi medido pelo metro mal nascido das normatividades de nossa \u00e9poca.<\/p>\n<p>O tiro parte severo. Seguro de si mesmo; inexor\u00e1vel, em um movimento assertivo; sem d\u00favidas, tal como a engrenagem de locomotiva. Sem volta. Tiro m\u00e1quina.<\/p>\n<p>Nenhum grito. A luz bem baixa do est\u00fadio indica que \u00e9 cedo ou tarde; neblina ou sereno na cidade. Ningu\u00e9m corre, ningu\u00e9m grita, ningu\u00e9m v\u00ea.<\/p>\n<p>Tudo passa, depois que o tiro partiu.<\/p>\n<p>O tiro parte em meio a uma ambi\u00eancia sonora sinest\u00e9sica, tal como em um filme de Kubrick: <em>Paths of Glory<\/em> (1957), <em>Dr. Strangelove<\/em> (1964), <em>The Shining<\/em> (1980), <em>Full Metal Jacket<\/em> (1987), <em>Eyes Wide Shut<\/em> (1999).<\/p>\n<p>O som da garrafa quando corrompida pela bala b\u00e9lica \u00e9 diferente da onda que explode<\/p>\n<p>ensurdecedora e intensa na praia da cidade.<\/p>\n<p>Bala b\u00e9lica, besta bondosa.<\/p>\n<p>Bala dad\u00e1; bala dada a alitera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Bala que parte, que zune e que zurra; que zomba e arromba.<\/p>\n<p>Bala zoom\u00f3rfica; c\u00e3o que morde.<\/p>\n<p>Depois do movimento centr\u00edfugo dos muit\u00edssimos fragmentos de vidro que pulverizam o ar, a garrafa j\u00e1 \u00e9 outra.<\/p>\n<p>Agora a garrafa \u00e9 um tapete irregular de vidro, sobre o qual pousa a estrutura de metal da escultura. Vidro que se oferece como leito para o elemento oxidado; vidro que se mistura<\/p>\n<p>\u00e0 ferrugem, que sustenta o metal que, havia pouco, a garrafa sustentava.<\/p>\n<p>\n***<\/p>\n<p><\/p>\n<p>A primeira impress\u00e3o \u00e9 a de que a pe\u00e7a de metal da obra cin\u00e9tica se preserva ap\u00f3s o tiro; mas n\u00e3o. A garrafa desfigurada incorpora o trabalho, pela viol\u00eancia da bala pl\u00fambea e fria que n\u00e3o soube esperar o tempo de tamb\u00e9m se dissolver docemente, em seu pr\u00f3prio processo de oxida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Garrafa que gira em seu gargalo o seu ritmo<sup>3<\/sup> \u00fanico; o p\u00eandulo das esculturas cin\u00e9ticas de<\/p>\n<p>Raul resta s\u00f3, em cena, como os atores dos mon\u00f3logos dos gigantes da dramaturgia.<\/p>\n<p>Algum de n\u00f3s saberia dizer o que \u00e9 girar absolutamente s\u00f3, <em>Like a rolling stone<\/em>?<sup>4<\/sup><\/p>\n<p><\/p>\n<p>O trabalho que ent\u00e3o protagoniza o filme de Raul Mour\u00e3o \u00e9 composto pela pe\u00e7a de metal, pela garrafa de vidro e pela incid\u00eancia do proj\u00e9til. O tiro parte. A garrafa se estilha\u00e7a. A pe\u00e7a de metal samba s\u00f3.<\/p>\n<p>Raul esteve desde sempre atento \u00e0 cidade em que vive; atento tamb\u00e9m a todas as outras cidades, pensando desde 1988-9 sobre as grades feias que, desde ent\u00e3o, ornamentaram grotescamente os pr\u00e9dios: excresc\u00eancias, vegeta\u00e7\u00f5es que, de algum modo, noticiavam a viol\u00eancia urbana brasileira, em especial aquela da cidade do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Observando a din\u00e2mica das ruas, as estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia, as setas de orienta\u00e7\u00e3o que a cidade confusamente apresenta e que sugerem caminhos confusos, Raul completa o giro, ao fazer das vegeta\u00e7\u00f5es floresc\u00eancias e, no movimento da volta, de novo \u00e0 excresc\u00eancia.<\/p>\n<p>\n***<\/p>\n<p>No r\u00e1dio de pilha, no walkman, no mp3, tamb\u00e9m morre quem atira,<sup>5<\/sup> sorrindo os seus dentes de chumbo.<sup>6<\/sup><\/p>\n<p>Virou not\u00edcia? Todos os dias, como as manchetes em p\u00e1ginas de jornal, tingidas em vermelho, cobertas por pano negro,<sup>7<\/sup> que s\u00f3 a \u201ctra\u00e7\u00e3o animal\u201d p\u00f4de revelar.<\/p>\n<p>H\u00e1 consolo? Apenas o de Ivens Machado.<sup>8<\/sup><\/p>\n<p>H\u00e1 esperan\u00e7a? Apenas aquela que vir\u00e1 de Bispo do Ros\u00e1rio, no dia do ju\u00edzo final.<sup>9<\/sup><\/p>\n<p><\/p>\n<p>Tem vida curta, a bala que j\u00e1 partiu; como inseto que vive apenas um dia.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o h\u00e1 licen\u00e7a po\u00e9tica para a bala que parte; h\u00e1 assombro, h\u00e1 susto e desconcerto.<\/p>\n<p>Toda poesia s\u00f3 p\u00f4de ter sido escrita antes ou ap\u00f3s a sua partida.<\/p>\n<p>Bala que parte n\u00e3o volta. Volta a not\u00edcia. Volta o grito.<\/p>\n<p>Depois de tudo, o som baixa; silencia em mutismo urbano e tenso.<\/p>\n<p>Desde que existe a arte, existe a vontade de destrui\u00e7\u00e3o da arte.<\/p>\n<p>\n<small><sup>1<\/sup> S\u00f3crates; Plat\u00e3o.<\/small><\/p>\n<p><small><sup>2<\/sup> <em>C\u00f4mico<\/em> tal qual o modo como o utiliza Dante (1265-1321), em sua <em>Divina com\u00e9dia<\/em>, ao deixar a mitologia ou os dramas hist\u00f3ricos para falar da vida da gente comum.<\/small><\/p>\n<p><small><sup>3<\/sup> Uma esp\u00e9cie de <em>idiorritmia<\/em>, na concep\u00e7\u00e3o de Barthes, em <em>Como viver junto<\/em> (curso no Coll\u00e8ge de France, 1976-7).<\/small><\/p>\n<p><small><sup>4<\/sup> Muddy Waters; Bob Dylan; Jimi Hendrix.<\/small><\/p>\n<p><small><sup>5<\/sup> Billy Roberts; Jimi Hendrix; O Rappa.<\/small><\/p>\n<p><small><sup>6<\/sup> Paulinho da Viola.<\/small><\/p>\n<p><small><sup>7<\/sup> <em>Repress\u00e3o outra vez: eis o saldo<\/em> (1968), de Antonio Manuel.<\/small><\/p>\n<p><small><sup>8<\/sup> <em>O Consolador<\/em> (1979), concreto armado e vidro.<\/small><\/p>\n<p><small><sup>9<\/sup> <em>Muro no fundo de minha casa<\/em> (sem data), madeira, concreto e cacos de vidro.<\/small><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Guilherme Gutman Bala perdida. ou \u201cN\u00e3o admitir, em nenhum caso, a poesia\u201d1 ou Desde que existe arte, existe o desejo de destruir arte. 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