{"id":2659,"date":"2018-09-06T18:17:11","date_gmt":"2018-09-06T18:17:11","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/?p=2659"},"modified":"2018-09-06T18:24:33","modified_gmt":"2018-09-06T18:24:33","slug":"o-que-voce-ve-2015","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/o-que-voce-ve-2015\/","title":{"rendered":"O que voc\u00ea v\u00ea? &#8211; 2015"},"content":{"rendered":"<h4>por Fernanda Lopes para exposi\u00e7\u00e3o Su Casa<br \/>\nNova York, Outubro de 2015<\/h4>\n<p>Em 1964, Frank Stella afirmou sobre suas pinturas: &#8220;O que voc\u00ea v\u00ea \u00e9 o que voc\u00ea v\u00ea.&#8221; A frase exemplifica o que \u00e9 considerado um dos princ\u00edpios do movimento minimalista. Em Su Casa, Raul Mour\u00e3o parece revisitar essa declara\u00e7\u00e3o, mas tomando-a n\u00e3o como uma afirma\u00e7\u00e3o e sim como uma pergunta: O que voc\u00ea v\u00ea \u00e9 o que voc\u00ea v\u00ea?<\/p>\n<p>Ao longo de mais de duas d\u00e9cadas de produ\u00e7\u00e3o, a obra de Mour\u00e3o sempre foi marcada por um forte interesse pelo espa\u00e7o urbano, pelo debate p\u00fablico, pela vida que acontece nas ruas, por acaso, em qualquer esquina, a qualquer hora. Em Su Casa essa l\u00f3gica parece se inverter, ou se reconfigurar, levando em conta outra dimens\u00e3o de espa\u00e7o e, como consequ\u00eancia, de percep\u00e7\u00e3o. A exposi\u00e7\u00e3o guarda certa escala dom\u00e9stica, humana. O espa\u00e7o da loja de rua transformado em espa\u00e7o expositivo se aproxima muito mais da sala de uma casa comum do que do cubo branco das galerias de arte e museus.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo da mostra tamb\u00e9m faz refer\u00eancia ao espa\u00e7o mais \u00edntimo de um artista: seu ateli\u00ea. O ateli\u00ea como espa\u00e7o vazio, como lugar de experi\u00eancia. Tanto Animal (2015) quanto Fenestra (2015) deixam o processo de sua realiza\u00e7\u00e3o \u00e0 mostra. Aqui o processo \u00e9 a obra. A escultura cin\u00e9tica que ocupa o centro da galeria \u00e9 feita de pe\u00e7as, m\u00f3dulos. \u00c9 um trabalho que parte de uma unidade simples que multiplicada, combinada e recombinada pelo artista revela sua complexidade em diferentes possibilidades de estrutura final.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nas pinturas convivem princ\u00edpios aparentemente conflitantes. Foi olhando para um desenho, gr\u00e1fico, que fez em seu ateli\u00ea &#8211; composto pela repeti\u00e7\u00e3o de ret\u00e2ngulos e linhas formadas pelos espa\u00e7os entre eles -, que o artista reconheceu ali a imagem de uma janela. E a partir da\u00ed come\u00e7ou a prestar mais aten\u00e7\u00e3o nas janelas do mundo. Esse \u00e9 o caminho inverso ao que opera quase toda a produ\u00e7\u00e3o de Mour\u00e3o. Ela n\u00e3o costuma se dar de dentro (do ateli\u00ea) para fora (no mundo) e sim com algo do mundo, que \u00e9 levado para dentro do ateli\u00ea &#8211; como aconteceu com a s\u00e9rie Grades, que partiu da percep\u00e7\u00e3o do artista sobre as grades de seguran\u00e7a que come\u00e7aram a ocupar o Rio de Janeiro nos anos 1980. Um dos s\u00edmbolos da fal\u00eancia da pol\u00edtica de seguran\u00e7a p\u00fablica na cidade come\u00e7ou a ser usado pelo artista como material de trabalho.<\/p>\n<p>Aqui, nas janelas de Raul Mour\u00e3o, a grade minimalista composta por linhas retas verticais e horizontais que se cruzam em \u00e2ngulos ortogonais, que \u00e9 ponto de partida do trabalho, perde sua impessoalidade e precis\u00e3o ao ser constru\u00edda \u00e0 m\u00e3o. O mesmo acontece com os ret\u00e2ngulos, unidade b\u00e1sica dessas pinturas: essas formas geom\u00e9tricas, id\u00eanticas, repetidas indefinidamente, v\u00e3o ganhando individualidade com o desgaste da tinta, os erros de alinhamento e outros &#8220;acidentes&#8221; que acontecem no meio do processo de realiza\u00e7\u00e3o do trabalho. Essas altera\u00e7\u00f5es produzem uma perturba\u00e7\u00e3o visual, uma tens\u00e3o entre o que deveria ser abstrato e o que passa a insinuar uma figura.<\/p>\n<p>Su Casa \u00e9 uma exposi\u00e7\u00e3o sobre a d\u00favida, sobre as infinitas possibilidades de ver (o mundo, a obra); sobre o exerc\u00edcio de (se) colocar em d\u00favida, de se abrir, pelo menos em pensamento, para outras possibilidades. \u00c9 como se and\u00e1ssemos por ela nos perguntando a todo momento: &#8220;E se?&#8221;, &#8220;Tem certeza?&#8221;. E este \u00e9 o car\u00e1ter verdadeiramente pol\u00edtico da arte: nos tirar de nossa zona de conforto, de nossa passividade e certeza cotidianas, e nos abrir a possibilidade de ver o mundo de uma maneira diferente.<\/p>\n<p>___<\/p>\n<p>Fernanda Lopes \u00e9 cr\u00edtica de arte e curadora, doutoranda em Hist\u00f3ria e Cr\u00edtica de Arte na EBA|UFRJ. Autora dos livros \u00c1rea Experimental &#8211; \u00e1rea experimental lugar espa\u00e7o dimens\u00e3o (Bolsa de Est\u00edmulo \u00e0 Produ\u00e7\u00e3o Cr\u00edtica &#8211; Minc\/Funarte, 2012) e A Experi\u00eancia Rex: \u00c9ramos o time do Rei (Pr\u00eamio de Artes Pl\u00e1sticas Marcantonio Vila\u00e7a &#8211; FUNARTE, 2009). Atualmente vive e trabalha em Nova York.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Fernanda Lopes para exposi\u00e7\u00e3o Su Casa Nova York, Outubro de 2015 Em 1964, Frank Stella afirmou sobre suas pinturas: &#8220;O que voc\u00ea v\u00ea \u00e9 o que voc\u00ea v\u00ea.&#8221; A frase exemplifica o que \u00e9 considerado um dos princ\u00edpios do movimento minimalista. 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