{"id":2657,"date":"2018-09-06T18:16:37","date_gmt":"2018-09-06T18:16:37","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/?p=2657"},"modified":"2018-09-06T18:23:57","modified_gmt":"2018-09-06T18:23:57","slug":"2657-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/2657-2\/","title":{"rendered":"Ver o vis\u00edvel &#8211; 2015"},"content":{"rendered":"<h4>por Eucana\u00e3 Ferraz para a exposi\u00e7\u00e3o FENESTRA<br \/>\nMar\u00e7o de 2015<\/h4>\n<p>Nessa nova mostra, Raul Mour\u00e3o mais uma vez investe no dif\u00edcil casamento entre acaso e constru\u00e7\u00e3o. Uma atitude n\u00e3o se sobrep\u00f5e \u00e0 outra e, antes, fazem-se na tens\u00e3o entre ambas, criando-se com tal retesamento solu\u00e7\u00f5es que suspendem julgamentos inclinados \u00e0 decis\u00e3o ou \u00e0 classifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, sob a for\u00e7a de articula\u00e7\u00f5es desestabilizadoras, os trabalhos t\u00eam algo do princ\u00edpio da gravura, mas n\u00e3o se definem pela reprodutibilidade. Adotam procedimentos da monotipia, mas a imagem obtida n\u00e3o resulta do processo mais comum de pintar a imagem numa superf\u00edcie, quase sempre de vidro, para depois comprimi-la com o papel. Os trabalhos est\u00e3o mais pr\u00f3ximos do carimbo, por\u00e9m n\u00e3o se resumem a isso. E n\u00e3o se afastam de vez dos procedimentos da pintura. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 uma escolha por essa ou aquela superf\u00edcie, este ou aquele material, este ou aquele pigmento. O principal n\u00e3o \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de uma t\u00e9cnica: todo o esfor\u00e7o est\u00e1 voltado para a experimenta\u00e7\u00e3o de possibilidades t\u00e9cnicas, da qual irrompem solu\u00e7\u00f5es que geram novos problemas a serem resolvidos posteriormente.<\/p>\n<p>Um julgamento cr\u00edtico preocupado com limites tamb\u00e9m teria dificuldades para definir a conjun\u00e7\u00e3o de linhas retas com a abstra\u00e7\u00e3o fluida do espa\u00e7o entre elas. Mesmo diante de uma economia parcimoniosa, como falar de minimalismo quando a fatura n\u00e3o se oculta e antes acata o imprevis\u00edvel e preza a imperfei\u00e7\u00e3o? Igualmente, como demarcar em termos de informalidade uma constru\u00e7\u00e3o rigorosa de planos e arranjos geom\u00e9tricos?<\/p>\n<p>A abstra\u00e7\u00e3o dos trabalhos de Raul Mour\u00e3o sempre se baseou em din\u00e2micas indistintas e problem\u00e1ticas. Afinal sua geometria tem origem nos objetos cotidianos, como fachadas de edif\u00edcios, campos de futebol, grades e sinaliza\u00e7\u00f5es de obras p\u00fablicas. Se, ao longo de sua carreira, o artista passou a aspirar organiza\u00e7\u00f5es formais cada vez mais livres, nunca deixou de exibir, simultaneamente, a mem\u00f3ria de processos de pesquisa arraigados \u00e0 viv\u00eancia urbana e cotidiana. Resultou da\u00ed uma esp\u00e9cie de abstra\u00e7\u00e3o reconhec\u00edvel, contaminada de experi\u00eancias corporais, simb\u00f3licas, afetivas, reminisc\u00eancias individuais e coletivas. Ou seja, estamos diante de uma geometria impura.<\/p>\n<p>Os trabalhos da exposi\u00e7\u00e3o \u201cCh\u00e3o-parede-gente\u201d (Lurixs, 2010) seguiam nessa dire\u00e7\u00e3o. E essa nova mostra aprofunda tais quest\u00f5es. Diante das esculturas-janelas constatamos o prosseguimento de uma pesquisa que, incessante, n\u00e3o se apresenta de modo linear. Vale lembrar que, inicialmente, as esculturas em a\u00e7o de Mour\u00e3o guardavam algo da cr\u00f4nica urbana, ou do coment\u00e1rio sociol\u00f3gico, na medida em que exibiam uma situa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica nascida da crise da seguran\u00e7a p\u00fablica: o uso avassalador e indiscriminado de grades de prote\u00e7\u00e3o. A escultura irrompia de um processo de desfuncionaliza\u00e7\u00e3o que dava a ver as linhas e os volumes apagados pela utilidade. Assistimos, nos \u00faltimos anos, por\u00e9m, ao encaminhamento de Mour\u00e3o para uma abstra\u00e7\u00e3o mais cl\u00e1ssica, pr\u00f3xima das obras de Amilcar de Castro, Franz Weissmann ou mesmo Calder. Nas esculturas apresentadas agora na Lurixs, as grades permanecem de fora do foco de interesse, mas a abstra\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m recuou para dar a ver algo prosaico e reconhec\u00edvel, que as grades furtavam \u00e0 vista: as pr\u00f3prias janelas. Estamos, por\u00e9m, diante da inven\u00e7\u00e3o, e com ela ergue-se uma arquitetura fragment\u00e1ria e m\u00f3vel, dan\u00e7ante, gra\u00e7as a uma cinese da mat\u00e9ria que refaz aos olhos \u2013 e ao toque \u2013 do espectador as condi\u00e7\u00f5es de peso, volume, movimento, equil\u00edbrio, tempo, valor.<\/p>\n<p>Interessa aqui menos a fun\u00e7\u00e3o ou a utilidade das coisas que sua situa\u00e7\u00e3o e ontologia. O olhar de Mour\u00e3o volta-se sobretudo para a inteligibilidade aparente das formas, como se estas falassem diretamente conosco. O conjunto de sua obra \u2013 esculturas, desenhos, pinturas, gravuras, videos, instala\u00e7\u00f5es, performances \u2013 vasculhou sempre subjetividades em a\u00e7\u00e3o, em permanente coincid\u00eancia com o espa\u00e7o real em que se movem. Se a cidade contudo n\u00e3o se separa de seu habitante, e vice-versa, n\u00e3o interessam a paisagem ou as conting\u00eancias de tempo e espa\u00e7o como simples pano de fundo: as formas arrancadas \u00e0 cidade importam na medida em que deixam ver a mem\u00f3ria das pr\u00e1ticas sociais. Por isso, em vez de formas puras temos aquela geometria impura, na qual j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel vislumbrar uma abstra\u00e7\u00e3o stricto sensu nem a mera figura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante dos \u201ccarimbos\u201d, experimentamos a ilus\u00e3o de que h\u00e1 algo a ser visto nos espa\u00e7os\/intervalos criados pelas esquadrias, como se houvesse um atrav\u00e9s, um fora. H\u00e1 o que ver fora? H\u00e1 dentro e fora? O olho tende a ver algo, quer ver algo. Mour\u00e3o sabe disso e instiga isso. \u00c9 quase inevit\u00e1vel pensarmos em Rear window (Janela indiscreta, 1954) o c\u00e9lebre filme de Alfred Hitchcock. Ali, a janela existe em fun\u00e7\u00e3o do que se pode ver atrav\u00e9s: um mundo onde a antiga privacidade burguesa se dissolveu na promiscuidade de uma classe m\u00e9dia aglomerada em apartamentos. O olhar vasculha, indiscreto, narrativas, fatos, a intimidade alheia. Recusando tais conte\u00fados, Raul Mour\u00e3o cria janelas \u2013 e portas \u2013 que valem por si mesmas. Ou ainda, volta-se para a superf\u00edcie, instalando um universo sem outro lado, sem fundo e sem avesso. Lembro-me da poeta portuguesa Sophia de Melo Breyner Andresen, que nos fala de uma \u201cveem\u00eancia do vis\u00edvel\u201d. Todo gesto de Raul parece buscar essa esp\u00e9cie de presen\u00e7a total.<\/p>\n<p>Estamos muito distantes do efeitos do trompe l\u2019oeil. Sem o desejo de imitar a realidade, os trabalhos de Raul Mour\u00e3o procuram, ao contr\u00e1rio, fazer com que o olho veja. Mesmo a reintrodu\u00e7\u00e3o das janelas da galeria LURIXS \u2013 mantidas apenas na fachada \u2013 para dentro de sua sala principal n\u00e3o busca fazer com que o espectador se sinta diante do (de um falso) real. Em vez do realismo falacioso, o resultado alcan\u00e7ado \u00e9 uma reflex\u00e3o engendrada pelo deslocamento, pelo estranhamento, que reivindica a agudeza da percep\u00e7\u00e3o. Tudo \u00e9 o que parece ser: forma, textura, cor, peso, volume, movimento, densidade, ritmo, mem\u00f3ria. Cada constru\u00e7\u00e3o tem \u201ca veem\u00eancia do vis\u00edvel\u201d. Em vez do engano, portanto, deparamo-nos com o jogo l\u00facido, com a proposi\u00e7\u00e3o l\u00fadica de uma arte que nos devolve o prazer de ver as coisas, e a n\u00f3s mesmos, em novas situa\u00e7\u00f5es. Assim, rejeitando a ilus\u00e3o, o engano, a trapa\u00e7a, Raul Mour\u00e3o reafirma a dimens\u00e3o \u00e9tica e pol\u00edtica de seu trabalho mesmo aqui, nessa nova exposi\u00e7\u00e3o, na qual as obras guardam uma consider\u00e1vel dist\u00e2ncia daquelas em que o discurso pol\u00edtico fez-se mais expl\u00edcito.<\/p>\n<p>Os m\u00faltiplos em a\u00e7o realizados a partir da Fresh widow (1920) de Duchamp criam uma curiosa linha hist\u00f3rica, pois recuperam a um s\u00f3 tempo o ready-made \u2013 estrat\u00e9gia fundamental na obra de Mour\u00e3o \u2013 e a historicidade do objeto \u2013 a janela \u2013 na hist\u00f3ria da arquitetura e nas zonas discursivas que o tomaram como signo privilegiado. Do mesmo modo, as diferentes incorpora\u00e7\u00f5es das esquadrias remetem \u00e0 grade cubista e \u00e0 arte concreta. Sob tal aspecto, \u00e9 poss\u00edvel reconhecer uma inequ\u00edvoca dimens\u00e3o cr\u00edtica e metalingu\u00edstica no conjunto dessa mostra \u2013 composta por pinturas (at\u00e9 onde \u00e9 poss\u00edvel usar tal defini\u00e7\u00e3o) e esculturas \u2013 na qual a express\u00e3o subjetiva guarda uma dimens\u00e3o de coment\u00e1rio reflexivo tanto acerca da po\u00e9tica singular de Raul Mour\u00e3o \u2013 s\u00e3o muitos os ecos, aqui, de suas obsess\u00f5es \u2013 quanto da (sua) hist\u00f3ria da arte, compreendida sempre, para usar uma express\u00e3o de Giulio Carlo Argan, nos termos de uma \u201cstoria dell\u2019arte come storia della citt\u00e0\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Eucana\u00e3 Ferraz para a exposi\u00e7\u00e3o FENESTRA Mar\u00e7o de 2015 Nessa nova mostra, Raul Mour\u00e3o mais uma vez investe no dif\u00edcil casamento entre acaso e constru\u00e7\u00e3o. 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