{"id":2640,"date":"2018-09-06T18:07:29","date_gmt":"2018-09-06T18:07:29","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/?p=2640"},"modified":"2018-09-06T18:07:29","modified_gmt":"2018-09-06T18:07:29","slug":"elogio-da-instabilidade-preludio-a-uma-colisao-provavel-2010-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/elogio-da-instabilidade-preludio-a-uma-colisao-provavel-2010-2\/","title":{"rendered":"Elogio da instabilidade (prel\u00fadio a uma colis\u00e3o prov\u00e1vel) \u2013 2010"},"content":{"rendered":"<h4>por Jacopo Crivelli Visconti<\/h4>\n<p><small>\u201cA arte \u00e9 o que torna a vida mais interessante do que a arte&#8230;\u201d<br \/>Robert Filliou<\/small><\/p>\n<\/p>\n<p>Passear pelas obras de Raul Mour\u00e3o \u00e9 um pouco como andar na rua: d\u00e1 para ouvir a voz da cidade, sentir sua presen\u00e7a, tocar suas grades, suas casas, sua natureza sufocada; admirar seu futebol, seus Carnavais e seus artistas; aprender a conhecer seus cachorros, suas \u00e1rvores, seus pol\u00edticos, e todas as suas cores. O ateli\u00ea do artista (pode ser que de todo artista, mas de Raul Mour\u00e3o em especial) \u00e9 o lugar onde essa cidade para, e os encontros que ali acontecem sugerem que, talvez, seja tamb\u00e9m um ateli\u00ea para a cidade. Encontros programaticamente casuais, como o da m\u00e1quina de costura e do guarda-chuva na mesa de disseca\u00e7\u00e3o, ao lado de um globo ocular malhando abdominais. O surrealismo de Raul Mour\u00e3o \u00e9 quase impercept\u00edvel, mascarado pelo acabamento impec\u00e1vel das obras e pela seriedade ir\u00f4nica com que seus Balan\u00e7os, por exemplo, uma vez acionados, se entregam a um moto aparentemente perp\u00e9tuo. Mas tem, evidentemente, um surrealismo latente na hist\u00f3ria do c\u00e3o que vira protagonista de reality show, ou nos movimentos de barata dos sete artistas pendurados na parede: um surrealismo de cinema, \u00e0 Anjo Exterminador 2, refer\u00eancia submersa e talvez arbitr\u00e1ria, mas em todo caso plaus\u00edvel, para essas grades que se multiplicam e que contudo ningu\u00e9m v\u00ea, para esse aprisionamento impercept\u00edvel que s\u00f3 se explicitava na instala\u00e7\u00e3o no Museu Vale do Rio Doce, onde uma porta quase invis\u00edvel, repentinamente, se fechava, prendendo o visitante, exatamente como o limiar imagin\u00e1rio, inexplic\u00e1vel e intranspon\u00edvel que, no filme de Bu\u00f1uel, mant\u00e9m os aristocratas prisioneiros da mans\u00e3o.<\/p>\n<p>A maioria das obras de Raul Mour\u00e3o nasce da colis\u00e3o de formas e ideias, do atrito entre materiais e conceitos aparentemente incompat\u00edveis: mesmo trabalhos formalmente quase minimalistas brotam desse esfor\u00e7o de acumula\u00e7\u00e3o. Pequenas esculturas, somadas a uma grande, formam um conjunto ou uma outra escultura, dizia o artista h\u00e1 alguns anos, quase descrevendo, ou prevendo, a obra Passagem, realizada em 2010, em que pequenas esculturas, Balan\u00e7os, s\u00e3o somadas a uma grande Grade, que as envolve, sugerindo novas interpreta\u00e7\u00f5es de cada um dos elementos. Vazios e sali\u00eancias replicam na Grade as silhuetas dos Balan\u00e7os, explicitando o parentesco entre os trabalhos, enquanto outras aberturas, que permitem a entrada dos visitantes, quase equiparam balan\u00e7os e pessoas. Outras obras, como Surdo-Mudo, ou ainda a personagem de Cartoon, esmagada por uma imensa pedra-cubo de madeira, pertencem a esse mesmo universo, em que as coisas quase nunca chegam a conversar e fundir-se: apenas aproximam-se, ou ent\u00e3o colidem. E desse choque nascem obras que s\u00e3o quase poesias visuais, em que o t\u00edtulo \u00e9 parte integrante da obra (&#8230;) como a defini\u00e7\u00e3o do material, do tamanho ou da t\u00e9cnica . Ou nascem ideias, como aquela do Cego S\u00f3 Bengala, em que o cego parece estar para a faca assim como a bengala est\u00e1 para a l\u00e2mina de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto , mas cuja raz\u00e3o de ser n\u00e3o \u00e9 apenas (ou n\u00e3o diretamente) o universo po\u00e9tico, e sim, novamente, uma colis\u00e3o imprevis\u00edvel na cidade: a escolha desses personagens se d\u00e1 porque eles v\u00e3o esbarrando em n\u00f3s todo o tempo. E esse \u201cn\u00f3s\u201d, somos todos: visitantes, observadores, cidad\u00e3os, artistas: entendo que todo artista \u00e9 cidad\u00e3o , disse Raul Mour\u00e3o, ou talvez todo cidad\u00e3o seja artista, como dizia Beuys.<\/p>\n<p>A precis\u00e3o das formas das obras parece apontar para uma linhagem concreta, que se faz particularmente evidente nas s\u00e9ries de trabalhos que exploram e escancaram a geometria do campo de futebol, mas aparece tamb\u00e9m em obras como as pinturas que replicam placas de estrada ou sinais de tr\u00e2nsito, ou em Sem bra\u00e7os e sem cabe\u00e7a, cujos personagens poderiam ser dois pluriobjetos de Willys de Castro que, cansados da imobilidade, tivessem decidido descer da parede e sair para conhecer o mundo. Onde essa filia\u00e7\u00e3o se faz mais evidente, contudo, \u00e9 mesmo na s\u00e9rie das Grades, e nos Balan\u00e7os que constituem seu desdobramento quase natural: a inevit\u00e1vel anima\u00e7\u00e3o de objetos t\u00e3o cheios de vida, t\u00e3o pr\u00f3ximos da vida. Cada vez que algu\u00e9m os aciona, os Balan\u00e7os reencenam a transi\u00e7\u00e3o do concretismo para o neoconcretismo, a apari\u00e7\u00e3o do movimento e da intera\u00e7\u00e3o, a corrup\u00e7\u00e3o da reta, parafraseando novamente o poeta. \u00c0 primeira vista, poderia parecer que essa corrup\u00e7\u00e3o, e a aparente impossibilidade de parar o movimento, contradigam o esmero dos acabamentos, a inflexibilidade das linhas, a retid\u00e3o dos \u00e2ngulos das obras de Raul Mour\u00e3o. Mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 contradi\u00e7\u00e3o, tudo est\u00e1 imbricado, e \u00e9 por isso tamb\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel falar de uma obra sem falar de todas as outras, e mesmo assim sabendo que a vis\u00e3o ser\u00e1 parcial: seria preciso discutir o que o artista est\u00e1 fazendo, antes do que as obras que resultam desse fazer.<\/p>\n<p>E, como n\u00e3o poderia deixar de ser, como a pr\u00f3pria cidade da qual ele constr\u00f3i, um peda\u00e7o de cada vez, o retrato mais inapreens\u00edvel (e, portanto, mais fiel), Raul Mour\u00e3o n\u00e3o para de fazer: concebe roteiros, alimenta seu blog, organiza encontros e trocas, publica revistas, abre e fecha espa\u00e7os expositivos, ateli\u00eas e galerias, faz poemas falsamente despretensiosos e escreve textos sobre artistas. Inclusive comp\u00f5e, por vezes, elogios surpreendentes, aut\u00eanticas declara\u00e7\u00f5es de amor para uma arte que trilha o caminho da imperman\u00eancia, do quase-invis\u00edvel, do ef\u00eamero : todos aspectos aparentemente alheios ou at\u00e9 antit\u00e9ticos ao seu fazer art\u00edstico, mas que, no fundo, n\u00e3o fazem mais do que revelar, de novo, o desejo de ver tudo, de entender tudo, de viver tudo. \u00c0 luz disso, cabe imaginar que o pr\u00f3prio movimento incans\u00e1vel dos Balan\u00e7os aponte, entre outras coisas, para essa op\u00e7\u00e3o de Raul Mour\u00e3o pela potencialidade, aludindo a uma atitude aberta, programaticamente amb\u00edgua, em constante desequil\u00edbrio. Aparentemente, os Balan\u00e7os seriam o ensaio para algo maior , mas nada impede de pensar que eles sejam, ao mesmo tempo, o ensaio para algo menor, o prel\u00fadio \u00e0 abertura total ou talvez, at\u00e9, \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o definitiva no mundo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Jacopo Crivelli Visconti \u201cA arte \u00e9 o que torna a vida mais interessante do que a arte&#8230;\u201dRobert Filliou Passear pelas obras de Raul Mour\u00e3o \u00e9 um pouco como andar na rua: d\u00e1 para ouvir a voz da cidade, sentir sua presen\u00e7a, tocar suas grades, suas casas, sua natureza sufocada; admirar seu futebol, seus CarnavaisContinue reading &rarr;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2640"}],"collection":[{"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2640"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2640\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2681,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2640\/revisions\/2681"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2640"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2640"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2640"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}