{"id":2636,"date":"2018-09-06T18:05:47","date_gmt":"2018-09-06T18:05:47","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/?p=2636"},"modified":"2018-09-06T18:05:47","modified_gmt":"2018-09-06T18:05:47","slug":"do-ferro-ao-afeto-2010-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/do-ferro-ao-afeto-2010-2\/","title":{"rendered":"Do ferro ao afeto &#8211; 2010"},"content":{"rendered":"<h4>por Felipe Scovino<\/h4>\n<p>A primeira vez que tomei contato com a s\u00e9rie Balan\u00e7os de Raul Mour\u00e3o foi em setembro do ano passado durante os ensaios da Intr\u00e9pida Trupe para o espet\u00e1culo Projeto: Cole\u00e7\u00f5es. Mour\u00e3o estava come\u00e7ando a experimentar os primeiros trabalhos dessa s\u00e9rie (que apesar dele relacion\u00e1-las como estudo ou experi\u00eancia de sucess\u00f5es, como se cada escultura fosse o projeto ou um esquema para algo \u201cmelhor\u201d ou maior, entendia que exatamente esse car\u00e1ter desafiador, inconstante e molecular da escultura como forma transit\u00f3ria tinha possibilitado ao artista um marco investigativo de alta pot\u00eancia para o seu trabalho) justamente tendo os bailarinos da Companhia como laborat\u00f3rio. Ao ver um deles montando as grades umas sobre a outras, intercalando espa\u00e7os, comprometendo os vazados das pe\u00e7as de Mour\u00e3o e como uma esp\u00e9cie de corpo-borracha se encaixando e movendo de forma f\u00e1cil naquela estrutura que para mim significava rigidez e formalismo, tive a certeza (e acredito que assim como Mour\u00e3o) que o que se consistia como sil\u00eancio (ainda que o ferro transmitisse uma ideia de agressividade por sua composi\u00e7\u00e3o material) transformou-se em corpo, afeto e linguagem.<\/p>\n<p>Foi impressionante perceber n\u00e3o apenas uma nova possibilidade para uma experi\u00eancia cin\u00e9tica nas artes, mas fundamentalmente a a\u00e7\u00e3o em seu estado bruto transformando algo com o qual sempre identificamos como inerte. Portanto, uma a\u00e7\u00e3o que, rompendo com a in\u00e9rcia da forma-matriz, projeta a escultura para o espa\u00e7o. Pela a\u00e7\u00e3o do gesto sobre a mat\u00e9ria, essas esculturas se mant\u00eam todas iguais, s\u00f3 que absolutamente diferentes entre si. Cada uma \u00e9 una, sendo fundamentalmente todas. No deslocamento da contempla\u00e7\u00e3o para a a\u00e7\u00e3o, Balan\u00e7os promove uma esp\u00e9cie de suspens\u00e3o do sujeito; seu ponto de partida \u00e9 o acionamento do mecanismo cin\u00e9tico pelo toque do espectador. No ritmo coordenado de seu movimento, uma fra\u00e7\u00e3o de tempo (que n\u00e3o corresponde ao tempo cronol\u00f3gico, mas se coloca como espa\u00e7o\/tempo experimental de liberdade) imp\u00f5e o que poder\u00edamos qualificar como sequestro do espectador: como se naquela exata condi\u00e7\u00e3o espacial e temporal, a obra anunciasse que a arte n\u00e3o se reduz ao objeto que resulta de sua pr\u00e1tica, mas ela \u00e9 essa pr\u00e1tica como um todo.<\/p>\n<p>Encontrando os minimalistas e ao mesmo tempo impondo um desvio para o terreno da escultura, o lugar dos Balan\u00e7os n\u00e3o \u00e9 crucial para Mour\u00e3o. Eles t\u00eam compromisso com o di\u00e1logo; s\u00e3o l\u00fadicos ao mesmo tempo em que imp\u00f5em a constante do afeto.\u00a0 Se nos minimalistas, a produ\u00e7\u00e3o tende a ser fechada em si mesma, impossibilitando um di\u00e1logo com o p\u00fablico, a n\u00e3o ser quando se coloca como amea\u00e7a ou obstru\u00e7\u00e3o, Balan\u00e7os se projeta como territ\u00f3rio de passagens, incorporando tudo a sua volta. S\u00e3o esculturas-pele, na melhor tradi\u00e7\u00e3o que convencionou chamar os neoconcretos de artistas dotados de uma geometria sens\u00edvel. Trabalhando com o ferro, Mour\u00e3o exp\u00f5e esse corpo-escultura ao tempo. A decomposi\u00e7\u00e3o dessa mat\u00e9ria transmite ao trabalho do artista uma passagem quase que invis\u00edvel: ao se decompor, o ferro nos chama a aten\u00e7\u00e3o para o nosso pr\u00f3prio estado prec\u00e1rio de exist\u00eancia. S\u00e3o essas ferrugens\/pele envelhecida\/rugas que d\u00e3o aos Balan\u00e7os, mais uma vez, um car\u00e1ter permanente de liga\u00e7\u00e3o com o mundo. Mour\u00e3o aplica a mobilidade a algo que pareceria est\u00e1tico.\u00a0 Balan\u00e7os gera ambiguidade: como obra isolada e est\u00e1tica, emana outra possibilidade de exist\u00eancia e compreens\u00e3o de seu estado enquanto for\u00e7a po\u00e9tica (o repouso de suas pesadas estruturas em perfeito equil\u00edbrio e a diversidade e qualidade com que trata a rela\u00e7\u00e3o com o tempo mesma numa falta de a\u00e7\u00e3o est\u00e3o entre as contribui\u00e7\u00f5es dessa s\u00e9rie para um pensamento recente sobre o lugar da escultura no Brasil), ao mesmo tempo em que anuncia combina\u00e7\u00f5es e deslocamentos, articulando unidades provis\u00f3rias que est\u00e3o na esfera da relatividade.<\/p>\n<p>Voltando ao encontro entre os bailarinos e as obras de Mour\u00e3o, foi marcante presenciar que enquanto nas esculturas neoconcretas a aus\u00eancia de massa ou vazio \u00e9 preenchido pelo ar, em Mour\u00e3o a falta \u00e9 dado essencial para o di\u00e1logo do corpo com a obra. Na qualidade de se configurar tamb\u00e9m como uma estrutura quase antropom\u00f3rfica, o movimento pendular dessa s\u00e9rie nos instiga a pensar que seu habitat passa a ser inclusive essa doa\u00e7\u00e3o de mundo que o contato humano carrega em cada gesto ativador desse p\u00eandulo. No embate entre escultura e homem, os cortes e vazios dos Balan\u00e7os possibilitaram m\u00faltiplos contatos e apropria\u00e7\u00f5es pelos bailarinos, conferindo \u00e0s pe\u00e7as uma sensualidade (em contraposi\u00e7\u00e3o a pr\u00f3pria sobriedade do ferro) e assumindo o corte como um tra\u00e7o estrutural, e n\u00e3o um adere\u00e7o. Um corte certeiro, sem arrependimentos, mas m\u00faltiplo em sua capacidade de gera\u00e7\u00e3o de sentidos e possibilidades fenomenol\u00f3gicas. Um corte, seco e s\u00f3lido, que n\u00e3o deixa de possuir, no entanto, uma sensualidade, \u201cou pelo menos uma disposi\u00e7\u00e3o de di\u00e1logo mais efetivo e afetivo com o mundo.\u201d<\/p>\n<p>Nessa exposi\u00e7\u00e3o estamos diante de uma pot\u00eancia que apenas no ateli\u00ea do artista tomamos conhecimento: a reuni\u00e3o de v\u00e1rios trabalhos que se conectam e dialogam n\u00e3o mais em territ\u00f3rios aut\u00f4nomos mas em um campo ampliado que remete a uma sinfonia de formas, vibra\u00e7\u00f5es e tempos. A melhor not\u00edcia \u00e9 que estamos apenas no in\u00edcio: Balan\u00e7os torna-se diferente exatamente por ser repetitiva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Felipe Scovino A primeira vez que tomei contato com a s\u00e9rie Balan\u00e7os de Raul Mour\u00e3o foi em setembro do ano passado durante os ensaios da Intr\u00e9pida Trupe para o espet\u00e1culo Projeto: Cole\u00e7\u00f5es. 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