{"id":2634,"date":"2018-09-06T18:04:51","date_gmt":"2018-09-06T18:04:51","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/?p=2634"},"modified":"2018-09-06T18:04:51","modified_gmt":"2018-09-06T18:04:51","slug":"chao-parede-e-gente-2010-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/chao-parede-e-gente-2010-2\/","title":{"rendered":"Ch\u00e3o, parede e gente &#8211; 2010"},"content":{"rendered":"<h4>por Frederico Coelho<\/h4>\n<p>I<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o est\u00e1 aberta e parada. Passo a passo, voc\u00ea entra na sala e pisa na certeza de que tudo est\u00e1 no lugar. Seu olhar confiante n\u00e3o procura mais o ch\u00e3o ao andar pelo recinto de uma galeria. Tem apenas que encarar as obras. E l\u00e1 est\u00e3o elas. Em s\u00f3lida espera. Paradas, firmes, imp\u00e1vidas, retas.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, como se estivesse numa casa desconhecida, existe o receio de tocar em algo que vai quebrar ou a preocupa\u00e7\u00e3o em tirar um m\u00f3vel do lugar. Mas a partir do momento em que voc\u00ea mexe em uma das bordas, a casa em descanso nunca mais ir\u00e1 parar. Pois \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o ceder \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de acionar o vai e vem pregui\u00e7oso e gracioso desses objetos. Testar o peso que \u00e9 leve e dar movimento ao inanimado. O a\u00e7o bruto se recobre de sensualidade e sua inesperada leveza transforma-se em uma ginga, um ir e vir acolhedor e descontra\u00eddo. Assim, como voc\u00ea, os visitantes ir\u00e3o tocar em tudo, at\u00e9 cada escultura cessar seu movimento e voltar ao escuro inerte da sala fechada.<\/p>\n<p>&#8211; Raul Mour\u00e3o sempre esteve apavorado. Blindado em abstra\u00e7\u00f5es, andava nas ruas e via grades onde viam a salva\u00e7\u00e3o. Cercou carros, cercou pedras, cercou \u00e1rvores, perseguiu cachorros, esmagou cabe\u00e7as, calou surdos, encaixotou mitos, pendurou artistas, expandiu \u00f3dios, cultivou parceiros. Eis que, atrav\u00e9s de uma fresta, quando reatamos ilus\u00f5es e celebramos a vida a troco de nada, Raul encontrou leveza. Uma forma de espantar os males e expandir afetos se apresentou a ele onde menos se esperava: no geom\u00e9trico vai e vem do a\u00e7o. Na frieza dos \u00e2ngulos retos, o artista abriu uma nova avenida para os seus olhos. Mesmo assim o pavor permanece. Estar apavorado n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o, mas sim uma condi\u00e7\u00e3o. Raul e seu ateli\u00ea localizam o mundo inteiro a partir de uma rua do bairro da Lapa. \u00c0s vezes, ele se instala na subida da escadaria, onde os gringos e as putas e os moleques e os azulejos e as fam\u00edlias e os casais e os abandonados cruzam os dias fren\u00e9ticos do artista. Ignorando choques de ordem e condom\u00ednios com academias de gin\u00e1stica, as ruas da Lapa continuam alucinadas. Raul sabe disso. As esculturas cin\u00e9ticas dessa exposi\u00e7\u00e3o s\u00e3o a prova de que mesmo nessa alucina\u00e7\u00e3o urbana, mesmo na ferrugem que carcome as formas, mesmo apertados entre ch\u00e3o, parede e gente, ainda h\u00e1 beleza.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Hoje em dia, todos sabem se portar em uma galeria, mesmo quando a arte exige comportamentos desviantes \u00e0 norma. Observar, tocar, participar. Sem mist\u00e9rios, questionamentos ou transgress\u00f5es de outrora, atualmente h\u00e1 at\u00e9 certo conforto em fazer parte da obra. Na exposi\u00e7\u00e3o de Raul, por\u00e9m, n\u00e3o basta tocarmos nas esculturas para sermos participadores. N\u00e3o basta darmos movimento \u00e0s pe\u00e7as para estarmos quites com algum tipo de conceito proposto pelo artista. Aqui, n\u00e3o se trata de participar para fazer parte do espet\u00e1culo. O que est\u00e1 posto n\u00e3o \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o individual-compensat\u00f3ria entre espectador e obra, em que participar \u00e9 satisfazer sua vontade em mexer no trabalho do outro. Raul n\u00e3o nos apresenta nem um bicho, nem uma capa. Nem um caminhando, nem um labirinto. Aqui, a grande obra em jogo \u00e9 TODO O ESPA\u00c7O DA SALA em permanente transforma\u00e7\u00e3o ap\u00f3s cada movimento.<\/p>\n<p>Ampliando a vis\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o como o conjunto dessas esculturas em movimento, o toque individual em uma das esculturas, qualquer uma delas, aciona um mecanismo f\u00edsico e entra em di\u00e1logo direto com os outros movimentos ao redor da sala. Os movimentos feitos por diferentes pessoas, em diferentes momentos, reordenam o tempo inteiro a geografia da exposi\u00e7\u00e3o. Assim, um movimento singular torna-se, automaticamente, coletivo. Nunca teremos o mesmo desenho na sala, pois nunca teremos o mesmo movimento, feito pela mesma m\u00e3o, na mesma velocidade. Para cada um, sua pr\u00f3pria exposi\u00e7\u00e3o. Pois \u00e9 o espectador, em uma evid\u00eancia do seu desejo, quem escolher\u00e1 a pe\u00e7a que deve ser balan\u00e7ada em primeiro lugar.<\/p>\n<p>&#8211; Qual me atrai mais? Por onde come\u00e7arei minha aventura com elas?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 regra, bula ou c\u00f3digo de conduta frente essas obras. H\u00e1 apenas esse convite sensual sem voz ou texto pedindo para acion\u00e1-las. Uma liberdade subentendida no equil\u00edbrio entre as bases e seus p\u00eandulos improv\u00e1veis. Pois tamb\u00e9m n\u00e3o se trata apenas de arte cin\u00e9tica. A hist\u00f3ria da arte n\u00e3o precisa ser evocada para falarmos sobre essa vontade do toque. \u00c9 porque dentro dessa sala instala-se uma rela\u00e7\u00e3o org\u00e2nica entre o que o espectador deseja acionar e o que as pe\u00e7as desenham ap\u00f3s serem acionadas. Aqui, voc\u00ea tem uma responsabilidade sobre a din\u00e2mica da exposi\u00e7\u00e3o. Cada um, com sua for\u00e7a ou seu temor, contribui para o movimento e a quebra da placidez dessas figuras atraentes. O equil\u00edbrio em um \u00fanico eixo, a organicidade improv\u00e1vel do objeto s\u00f3lido, tudo \u00e9 abra\u00e7ado pelo l\u00e1 e c\u00e1 do balan\u00e7o. A exposi\u00e7\u00e3o se faz a partir desse deslumbre: fazer as pe\u00e7as dan\u00e7arem.<\/p>\n<p>&#8211; Raul disse que, durante um ensaio da Intr\u00e9pida Trupe, o acrobata bailava com suas grades. Raul viu a grade de ferro girar e sorriu. Viu o acrobata subir na grade de ferro e temeu. Viu o acrobata balan\u00e7ar a grade de ferro e pirou. Estas esculturas com balan\u00e7o n\u00e3o nasceram de um impulso racional brutalista, nem foram gestados ap\u00f3s dias de c\u00e1lculos solit\u00e1rios sobre pesos e medidas. Elas nasceram de uma ginga. Por isso que sua geometria segue a sinuosidade do corpo e das ruas. Suas camadas de \u00e2ngulos, a sobreposi\u00e7\u00e3o dos bailados das hastes, a borda do peso imprevis\u00edvel, tudo isso explode a raz\u00e3o do a\u00e7o e nos envolve em uma dan\u00e7a hipn\u00f3tica. A origem dos balan\u00e7os \u00e9 essa transposi\u00e7\u00e3o de um movimento alheio. \u00c9 a apropria\u00e7\u00e3o desse gesto, ampliada pelo olhar pl\u00e1stico do artista.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>Existe, tamb\u00e9m, um sil\u00eancio solene ao redor do que se move. Ecoando em baixa freq\u00fc\u00eancia, no oco desse sil\u00eancio, certo ar de risco. H\u00e1 ao redor dos Balan\u00e7os uma forma difusa de medo, um frisson que n\u00e3o deixa voc\u00ea se afastar do que lhe assusta, uma vontade de mexer com o que pode n\u00e3o dar certo (ser\u00e1 que ele cair\u00e1? Ser\u00e1 que ele me machucar\u00e1?), de colocar a m\u00e3o no fogo, de olhar narcotizado o que lhe fascina. H\u00e1, enfim, um amor. Pois vencida a rejei\u00e7\u00e3o que pe\u00e7as pesadas, frias e escuras de a\u00e7o nos passam, come\u00e7amos a enxergar formas pessoais, contornos de corpos em uma beleza quente. Somos seduzidos pelo artista a comprovar cada t\u00edtulo das pe\u00e7as, observando o tempo das obras em movimento e firmando um compromisso com a contempla\u00e7\u00e3o do que admiramos. Cada vez que voc\u00ea tocar nessas obras esteja pronto para rasurar o desenho do espa\u00e7o que voc\u00ea encontrou e para ser coautor nessa cartografia de desejos cin\u00e9ticos. Nessa inesperada festa das formas, esvazie a mente no ritmo pl\u00e1cido do tempo enquanto as esculturas de Raul dan\u00e7am para voc\u00ea. Ou melhor, dan\u00e7am com voc\u00ea.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Frederico Coelho I A exposi\u00e7\u00e3o est\u00e1 aberta e parada. Passo a passo, voc\u00ea entra na sala e pisa na certeza de que tudo est\u00e1 no lugar. Seu olhar confiante n\u00e3o procura mais o ch\u00e3o ao andar pelo recinto de uma galeria. Tem apenas que encarar as obras. E l\u00e1 est\u00e3o elas. 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