{"id":2628,"date":"2018-09-06T18:00:09","date_gmt":"2018-09-06T18:00:09","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/?p=2628"},"modified":"2018-09-06T18:00:56","modified_gmt":"2018-09-06T18:00:56","slug":"samba-da-pizza-2006-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/samba-da-pizza-2006-2\/","title":{"rendered":"Samba da pizza &#8211; 2006"},"content":{"rendered":"<h4>por Bernardo Mortimer<br \/>\nRio de Janeiro, Abril de 2006<\/h4>\n<p>O presente passa, o presente muda, a obra-de-arte fica. E o Lula? Que dia \u00e9 hoje mesmo? Ah, sim. Mais do que um tanto faz, \u00e9 a surpresa do mentiroso, ou pior, do arauto da verdade da transmiss\u00e3o ao vivo da vez. O tempo passa, e o luladepel\u00facia ocupa o cargo m\u00e1ximo da na\u00e7\u00e3o. O PT n\u00e3o \u00e9 o partido que era antes de 2003, ou \u00e9 e n\u00e3o dava para desconfiar. O n\u00facleo duro foi o que se desmanchou no ar.<\/p>\n<p>A arte datada nem sempre \u00e9 o contr\u00e1rio da arte eterna, e \u00e9 f\u00e1cil derrubar tanto um quanto o outro r\u00f3tulo. O complicado \u00e9 mexer com a arte que veste a camisa do jornal do dia, do \u00faltimo plant\u00e3o do canal de not\u00edcias a cabo, da \u00faltima atualiza\u00e7\u00e3o do blog do jornalist\u00e3o do site. Quando o conceito de arte aberta incorpora o excesso de informa\u00e7\u00e3o de um personagem que adora m\u00eddia, e que \u00e9 amado e odiado historicamente em doses iguais pelos homens por tr\u00e1s de teclados, microfones, m\u00e1quinas fotogr\u00e1ficas ou gravadores, n\u00e3o d\u00e1 pra entender aquilo definitivamente. Sempre haver\u00e1 um dia seguinte para que a obra se torne outra coisa, uma curiosidade em descobrir o que era a obra quando s\u00f3 id\u00e9ia.<br \/>\nJo\u00e3o Moreira Salles e Eduardo Coutinho tiveram d\u00favidas sobre reeditar os document\u00e1rios \u2018Entreatos\u2019 e \u2018Pe\u00f5es\u2019 por causa do esc\u00e2ndalo de Jos\u00e9 Dirceu e da mat\u00e9ria estranha de um Larry Rohter. O correspondente acabaria pe\u00e7a de folclore de gringo louco no carnaval. Um dos diretores cortou cenas do filme pensando nos novos significados que n\u00e3o estavam ali na hora da grava\u00e7\u00e3o. A Folha de S\u00e3o Paulo questionou.<\/p>\n<p>Herbert Vianna nunca mais incluiu \u2018Lu\u00eds In\u00e1cio (300 Picaretas)\u2019 em um set list do Paralamas do Sucesso. Dinho Ouro Preto entrou com o Capital Inicial em um projeto de regravar o Aborto El\u00e9trico e recolocou \u2018Que Pa\u00eds \u00c9 Esse?\u2019 pela infinit\u00e9sima vez na lista de mais tocadas. O Tit\u00e3s tamb\u00e9m picaretou o punk com um refr\u00e3o de palavr\u00f5es em \u2018Vossa Excel\u00eancia\u2019.<br \/>\nO artista pl\u00e1stico Raul Mour\u00e3o n\u00e3o precisou tomar nenhuma decis\u00e3o. \u201cO que era apenas um trabalho de arte cheio de ironia e bom humor se transformou num brinquedo assassino\u201d. A aura do luladepel\u00facia est\u00e1 na cabe\u00e7a do p\u00fablico. Se era cheio de ironia e bom humor, assim ficou. O mau humor \u00e9 nosso. E de assassino o brinquedo n\u00e3o tem nada. Ou pelo menos cada senten\u00e7a que escolha que cabe\u00e7a \u00e9 a que rola, e como.<\/p>\n<p>O domingo \u00e0 noite j\u00e1 tinha virado madrugada de segunda, e a larica j\u00e1 ia para o segundo xisburguer de posto de gasolina quando Jards Macal\u00e9 entrou na loja de conveni\u00eancia falando besteira e comprando cigarro. Atrapalhado, daquelas formas que o vapor barato e a hora adiantada explicam, se molhou com um l\u00edquido qualquer que a hora barata e o vapor adiantados impedem a lembran\u00e7a. Foi a\u00ed que veio a aproxima\u00e7\u00e3o, e da\u00ed o assunto, em cima de uma manchete qualquer da revista semanal.<\/p>\n<p>&#8211; T\u00e3o afundando o governo.<\/p>\n<p>&#8211; Mas o Alckmin? N\u00e3o afunda nem S\u00e3o Paulo, esse a\u00ed.<\/p>\n<p>&#8211; Que Alckmin, governo que \u00e9 bom se afunda sozinho, sem ajuda.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, e esse t\u00e1 mais competente que a oposi\u00e7\u00e3o pra se detonar.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que o governo n\u00e3o gosta de terra firme.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o gosta de terra firme, de enterrar firme&#8230;<\/p>\n<p>O Jards adorou o trocadilho safado. Ficou pulando fazendo gestos de enterrar firme que \u00e9 melhor n\u00e3o repetir aqui, e fazendo prffff com a l\u00edngua pra fora.<\/p>\n<p>No mesmo dia, madrugada feita tarde, Palocci ca\u00eda. Macal\u00e9 falou, Macal\u00e9 avisou.<\/p>\n<p>Brinquedo assassino ou governo suicida? (E paran\u00f3ico, e neur\u00f3tico, e \u00e0s vezes esquizofr\u00eanico, mas isso fica pra outro texto.) Ca\u00eddo Palocci, o luladepelucia vira outra coisa. Um homem s\u00f3, sem querer sair do poder. Sem ter quem defenda a mudan\u00e7a de perfil da d\u00edvida, o maior sal\u00e1rio m\u00ednimo em muito tempo, o fim do nepotismo, os recordes do com\u00e9rcio externo. Sem ter quem evite os ataques aos juros j\u00e1 irreais, o crescimento do PIB e da ind\u00fastria abaixo de qualquer expectativa, a pol\u00edtica social eleitoreira, a educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica com menos verbas do que a superior, as obras em estrada sem resultado.<br \/>\nNa mesma semana da queda, uma pesquisa Ibope revelava a partir de 13 perguntas sobre pecados acess\u00edveis do dia-a-dia como comprar um produto pirata ou apresentar um atestado m\u00e9dico falso para faltar ao trabalho: quanto mais educado, quanto mais alta a classe social, quanto mais ao sul do pa\u00eds, e quanto mais jovem \u00e9 o brasileiro, mais tolerante ele \u00e9 com a corrup\u00e7\u00e3o. Quer dizer, brasileirodepel\u00facia tamb\u00e9m n\u00e3o vai faltar?<br \/>\nA dan\u00e7a no plen\u00e1rio do Congresso \u00e9 a da crian\u00e7a abandonada sem luladepel\u00facia. Todos seremos falc\u00f5es. Ou todos j\u00e1 somos falc\u00f5es, os do Fant\u00e1stico, e pronto. Quem sabe eu n\u00e3o sou mais uma garotinha&#8230; J\u00e1 era.<br \/>\nPalocci, no dia da despedida do governo: \u201cTalvez eu tenha falhado na minha cren\u00e7a na conviv\u00eancia pac\u00edfica. Talvez ela seja ing\u00eanua\u201d. Paloccidepel\u00facia, c\u00ednico ou trouxa, o Brasil perdeu mais um tanto de ingenuidade com um fim de governo duro e \u00e1spero. Nada a ver com pel\u00facia.<\/p>\n<p><strong>Bernardo Mortimer<\/strong><\/p>\n<p>Rio de Janeiro, abril de 2006<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Bernardo Mortimer Rio de Janeiro, Abril de 2006 O presente passa, o presente muda, a obra-de-arte fica. E o Lula? Que dia \u00e9 hoje mesmo? Ah, sim. Mais do que um tanto faz, \u00e9 a surpresa do mentiroso, ou pior, do arauto da verdade da transmiss\u00e3o ao vivo da vez. 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