{"id":2609,"date":"2018-09-06T17:32:37","date_gmt":"2018-09-06T17:32:37","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/?p=2609"},"modified":"2018-09-06T17:32:37","modified_gmt":"2018-09-06T17:32:37","slug":"a-obra-de-arte-na-era-da-reprodutibilidade-provocante-2005-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/a-obra-de-arte-na-era-da-reprodutibilidade-provocante-2005-2\/","title":{"rendered":"A obra de arte na era da reprodutibilidade provocante &#8211; 2005"},"content":{"rendered":"<h4>por Piu Gomes<br \/>\nBras\u00edlia, outubro de 2005<\/h4>\n<p>Se voc\u00ea lembrou de Walter Benjamin e seu famoso ensaio que sacudiu o meio art\u00edstico e fez todos repensarem a produ\u00e7\u00e3o cultural, n\u00e3o foi por acaso. A nova obra de Raul Mour\u00e3o, <strong>Lula de Pel\u00facia<\/strong>, tamb\u00e9m parte do princ\u00edpio da reprodu\u00e7\u00e3o para causar reflex\u00e3o. Mas se Benjamin questionava, entre outros aspectos, o valor da obra \u2013 n\u00e3o mais singular, e sim disseminada \u2013 e o princ\u00edpio da autoria \u2013 numa escala de produ\u00e7\u00e3o industrial, v\u00eam \u00e0 tona manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas como o cinema, onde o autor deixa, talvez, de ser um s\u00f3 para se fazer coletivo &#8211; Raul Mour\u00e3o mais uma vez se apropria de elementos cotidianos e urbanos para fazer da galeria um espa\u00e7o l\u00fadico, de sensa\u00e7\u00f5es inusitadas, que teimam em acompanhar voc\u00ea mesmo depois da sa\u00edda.\n<\/p>\n<p>Mour\u00e3o marca seu trabalho por um olhar carinhoso e ao mesmo tempo cr\u00edtico da <strong>urbis<\/strong> que o cerca. Foi assim com a s\u00e9rie <strong>Casinhas<\/strong>, que plantava interven\u00e7\u00f5es em pontos inusitados da cidade; com os trabalhos de <strong>Futebol<\/strong>, que lan\u00e7ava a paix\u00e3o nacional em geometrias familiares e inc\u00f4modas, devido \u00e0 estranheza dos materiais n\u00e3o-org\u00e2nicos que a representavam; e qui\u00e7\u00e1 essa vertente tenha atingido seu ponto mais alto com a asfixia proporcionada por <strong>Grades<\/strong>, em que a galeria se tornava espelho e pris\u00e3o do cidad\u00e3o comum, sufocado sem consci\u00eancia pela paisagem-conflito em que vive.\n<\/p>\n<p>Mesmo quando essa liga\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o evidente, ela est\u00e1 l\u00e1. Em <strong>Cartoon<\/strong> t\u00ednhamos o universo do desenho animado, em <strong>Rua<\/strong> s\u00e3o reflex\u00f5es similares \u00e0s de um Jo\u00e3o do Rio. Em <strong>Lula de Pel\u00facia<\/strong> Raul Mour\u00e3o dialoga com o maior \u00edcone produzido pelo Brasil nos \u00faltimos tempos. E o faz de maneira afetuosa, pois ao represent\u00e1-lo como um bonequinho de pel\u00facia imediatamente o remete para um recanto precioso da interpreta\u00e7\u00e3o \u2013 o tempo perdido da inf\u00e2ncia, onde proteg\u00edamos nossos sonhos traduzidos por nossos brinquedos, ao mesmo tempo em que \u00e9ramos protegidos por eles das agruras do mundo adulto.\n<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vemos a\u00ed ecos da rela\u00e7\u00e3o que se estabeleceu entre a figura pol\u00edtica e a na\u00e7\u00e3o que o elegeu: nunca se acreditou tanto, nunca tivemos tanta certeza da mudan\u00e7a, nunca torcemos tanto para dar certo. Quer\u00edamos, sim, ter um Lula s\u00f3 pra gente, pra poder abra\u00e7ar e dar carinho para aquele que representava uma nova \u00e9poca para um pa\u00eds t\u00e3o carente de sonhos e esperan\u00e7as. E Raul reflete isso enchendo uma parede inteira com seus presidentes de pel\u00facia \u2013 e a\u00ed Benjamin reaparece. Porque o impacto dessa imagem come\u00e7a a desmontar seu pr\u00f3prio jogo de sedu\u00e7\u00e3o.\n<\/p>\n<p>Afinal, nos aproximamos e vamos procurar m\u00ednimas diferen\u00e7as entre um e outro; nos afastamos e vamos tentar achar alguma mensagem escondida no desenho formado pelo conjunto; vemos tantos Lulas que come\u00e7amos a nos perguntar se isso n\u00e3o seria uma bem-humorada cr\u00edtica \u00e0 super-exposi\u00e7\u00e3o do nosso presidente na m\u00eddia. No cinema, a repeti\u00e7\u00e3o de um mesmo plano coloca o espectador numa situa\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel, quando rompe o naturalismo imperioso ao qual ele est\u00e1 acostumado e desvenda o processo da constru\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Do mesmo modo, Raul Mour\u00e3o, ao multiplicar pela galeria um objeto t\u00e3o doce e t\u00e3o representativo dos nossos anseios de felicidade, inaugura a obra de arte na era da reprodutibilidade provocante. Voc\u00ea sai de l\u00e1 considerando a possibilidade de recusar um bichinho daqueles, se por acaso te oferecessem um. Os \u00faltimos acontecimentos, mais o di\u00e1logo contido em <strong>Lula de Pel\u00facia<\/strong>, podem deixar um gosto um pouco amargo na boca. Um gosto assim, digamos, de amadurecimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Piu Gomes Bras\u00edlia, outubro de 2005 Se voc\u00ea lembrou de Walter Benjamin e seu famoso ensaio que sacudiu o meio art\u00edstico e fez todos repensarem a produ\u00e7\u00e3o cultural, n\u00e3o foi por acaso. A nova obra de Raul Mour\u00e3o, Lula de Pel\u00facia, tamb\u00e9m parte do princ\u00edpio da reprodu\u00e7\u00e3o para causar reflex\u00e3o. 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