{"id":2600,"date":"2018-09-06T17:25:01","date_gmt":"2018-09-06T17:25:01","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/?p=2600"},"modified":"2018-09-06T17:25:01","modified_gmt":"2018-09-06T17:25:01","slug":"os-signos-asperos-2004-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/os-signos-asperos-2004-3\/","title":{"rendered":"Os signos \u00e1speros &#8211; 2004"},"content":{"rendered":"<h4>por\u00a0Agnaldo Farias<br \/>\nS\u00e3o Paulo, mar\u00e7o de 2004<\/h4>\n<p>Pensemos no jogo de futebol, esporte que o artista cultua e pratica com denodada bravura, na alegria antecipada da carona, na fila do ingresso, no alarido da turba abalroando-se, apressada em descobrir os lugares correspondentes, nos olhares excitados convergindo para o gramado, na entrada dos jogadores enfileirados, nos estrondos, nas luzes e na fuma\u00e7a dos fogos e flashes, nas vozes estridentes irradiadas pelos radinhos colados aos ouvidos, na dispers\u00e3o dos exerc\u00edcios de aquecimento seguida da pausa ordenada e marcial, no apito do juiz e na bola que finalmente rola.<\/p>\n<p>Pensemos agora no est\u00e1dio vazio, nas linhas imaculadamente brancas que demarcam o gramado verde em por\u00e7\u00f5es regulares, nas longas linhas retas que definem aos combatentes os limites exteriores e interiores da \u00e1rea da porfia; na linha circular que consagra o meio de campo, ponto de partida de tudo e regi\u00e3o central onde calculada ou estabanadamente s\u00e3o montadas as estrat\u00e9gias de ataque; e nas duas meia-luas, dois arcos que se distendem a partir das traves, talvez por efeito das unidades basculantes que os comp\u00f5em, os goleiros, cujos movimentos s\u00e3o por elas balizados. Pensemos nas traves, nesses ret\u00e2ngulos que se erguem abruptos, graves e s\u00f3lidos nas duas extremidades do campo, na qualidade de materializa\u00e7\u00f5es das linhas desenhadas com exatid\u00e3o sobre a extensa superf\u00edcie verde; pensemos por fim em como elas emolduram o vazio, dois vazios, dois limbos, metas e destinos da bola, que talvez s\u00f3 n\u00e3o desapare\u00e7a dentro delas porque fica retida nas teias delicadas &#8211; h\u00e1 quem se refira a elas como v\u00e9us \u2013, nas redes que estremecem para em seguida abrigar com docilidade a bola, deixando-a repousar por alguns segundos at\u00e9 que algu\u00e9m a pegue para que o jogo possa recome\u00e7ar. As traves s\u00e3o a encarna\u00e7\u00e3o do diagrama derramado sobre o ch\u00e3o, o momento em que a id\u00e9ia se corporifica e aflora no mundo, p\u00f3rtico para a vit\u00f3ria e que por isso mesmo justifica toda a energia dispendida.<\/p>\n<p>H\u00e1 algo de incompreens\u00edvel no futebol como de resto em qualquer jogo, no modo como arrebata as formiguinhas arreliadas e barulhentas como se suas vidas dependessem daquilo; em nosso aceitar t\u00e1cito de regras t\u00e3o arbitr\u00e1rias quanto sutis, e que no futebol se traduz em coisas como impedimento, obstru\u00e7\u00e3o, falta em dois toques&#8230; No entanto, esse carisma repousa na profunda identifica\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s, assistentes, e nossa imanente necessidade de regras. Com seus rituais, suas normas r\u00edgidas, seus limites e penalidades, com o elenco de gestos que ele propicia e cuja pr\u00e1tica continuada termina por ampliar, o jogo de futebol, como outro jogo qualquer, diz da nossa disposi\u00e7\u00e3o em criar regras e viver atrav\u00e9s delas. Nada diferente, j\u00e1 se v\u00ea, das rela\u00e7\u00f5es interpessoais e de tudo que \u00e9 criado a partir delas, das cidades \u00e0s casas, das coisas \u00e0s palavras. E embora o tema o futebol enseje simpatia e at\u00e9 entusiasmo, a quest\u00e3o dos jogos que criamos para neles nos enredar, como nos ensina o artista variando entre o humor e a perversidade, \u00e9 muito mais complexa, implicada que est\u00e1 com a natureza dos limites e com as puni\u00e7\u00f5es derivadas de sua transgress\u00e3o.<\/p>\n<p>Raul Mour\u00e3o leva o esporte a uma dimens\u00e3o transcendente. Para ele tudo \u00e9 jogo. E todos n\u00f3s, bem ou mal, com maior ou menor desenvoltura, atletas praticantes. O jogo come\u00e7a j\u00e1 nas palavras, atravessa tudo que h\u00e1 para desembocar no territ\u00f3rio da arte. E seu papel como artista consiste em fazer notar a espessura desse fato, transport\u00e1-lo para o universo da arte, igualmente entendido como uma inst\u00e2ncia proponente de jogos e, portanto, pr\u00f3digo em mal\u00edcias e ardilosidades. Mour\u00e3o por assim dizer desfuncionaliza os elementos que comp\u00f5em alguns dos jogos, a come\u00e7ar pelo pr\u00f3prio futebol, tema de um trabalho apresentado na terceira edi\u00e7\u00e3o da Bienal do Mercosul, em 2001, e que consiste na confec\u00e7\u00e3o de uma \u201cgrande \u00e1rea\u201d com as dimens\u00f5es oficiais apenas que integralmente realizada \u2013 linhas divis\u00f3rias, meias-luas, marca do p\u00eanalti e traves \u2013 com a mesma tubula\u00e7\u00e3o met\u00e1lica pintada de branco. Mant\u00e9m-se a beleza da geometria em branco sobre o piso verde, apenas que, transformada em obst\u00e1culo capcioso, impede a flu\u00eancia do jogo.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de se comportarem com docilidade, ao inv\u00e9s de desaparecerem impregnados e esquecidos dentro de n\u00f3s, os signos deslocados pelo artista e corporificados em materiais variados adquirem aspereza, perdem a transpar\u00eancia, a univocidade de sentido que at\u00e9 ali possu\u00edam. E mesmo o mais prosaico dos utens\u00edlios dom\u00e9sticos, assim como alguns dos s\u00edmbolos mais familiares, j\u00e1 n\u00e3o respondem \u00e0 desejada funcionalidade. Soam surdos e quando n\u00e3o nos frustram por terem sido inviabilizados, retrucam aos nossos apelos \u00e0s vezes com humor, outras vezes com viol\u00eancia. Criados por n\u00f3s, insurgem-se contra n\u00f3s, rompem a rela\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica e subserviente que hav\u00edamos estabelecidos com eles. Desse circuito sequer a figura rom\u00e2ntica do artista, cultuada por todos como modelo do ind\u00edviduo liberto, recheado de sonho, escapa. Em um trabalho devidamente intitulado \u201cArtistas\u201d, Raul Mour\u00e3o convidou seus colegas artistas a vestirem r\u00e9deas fixadas nas paredes. Suspensos, desconfort\u00e1veis, com os movimentos tolhidos, dessa vez os artistas \u00e9 que eram expostos. E, afinal, porque deveriam eles escapar? O que os levaria a pensar que as regras e limites n\u00e3o se aplicariam a eles? O que os levaria a pensar que os feiticeiros estariam a salvo dos feiti\u00e7os?<\/p>\n<p>Na l\u00f3gica dos signos, a cidade, locus de todos os jogos, sementeira de signos, do aprisionamento e das ilus\u00f5es a que eles nos levam, ocupa uma posi\u00e7\u00e3o essencial. Vai da\u00ed ter sido muito natural que Raul rumasse para ela.<\/p>\n<p>Apresentado em primeira vers\u00e3o no Instituto Tomie Ohtake, ENTONCES compreende um sem n\u00famero de esculturas ocas, realizadas a partir de vergalh\u00f5es de ferro cr\u00fa, soldados e limados nos pontos de encontro. ENTONCES, trabalho pertencente a um racioc\u00ednio maior \u2013 a s\u00e9rie Grades -, que envolve esculturas, instala\u00e7\u00f5es, serigrafias, v\u00eddeos e fotografias, nasceu aparentemente da constata\u00e7\u00e3o do avan\u00e7o dos sistemas e estruturas de controle sob o corpo da grande cidade brasileira, o que \u00e9 o mesmo que dizer sobre o cidad\u00e3o, e que tanto acontece a partir de dispositivos impercept\u00edveis, como aquele s\u00f3 denunciado pelo aviso que cinicamente nos solicita \u201cSorria, voc\u00ea est\u00e1 sendo filmado\u201d, quanto por elementos muito mais palp\u00e1veis e agressivos, como as grades que hoje literalmente engaiolam as casas e pequenos edif\u00edcios suburbanos ou situados em \u00e1rea de alta periculosidade. Enquanto antigamente essas grades se comportavam quase como signos de seguran\u00e7a e de afirma\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter privado de um terreno e da casa situada dentro dele, s\u00f3 eventualmente se estendendo at\u00e9 as janelas das suas fachadas, hoje se proliferaram n\u00e3o s\u00f3 sob a forma de planos mas de volumes, verdadeiras proto-arquitetura vazadas na hostilidade que recobrem tudo quanto \u00e9 \u00e1rea de servi\u00e7o, recuos frontais e laterais, fortificando veda\u00e7\u00f5es j\u00e1 existentes, incorporadas n\u00e3o s\u00f3 pelas habita\u00e7\u00f5es como tamb\u00e9m largamente adotado pelo com\u00e9rcio mi\u00fado das farm\u00e1cias, mercados, bares e dos armaz\u00e9ns de secos e molhados cujos donos e empregados atendem do lado de l\u00e1, como prisioneiros em regime domiciliar.<\/p>\n<p>Separadas umas das outras por pequenos corredores, o corpo do visitante transita lento e cauteloso por entre as celas de ferro de dimens\u00f5es variadas de ENTONCES\u00a0 como se caminhasse pelas ruas de uma cidade em escala reduzida e hostil. Assim diminu\u00eddos os edif\u00edcios de imediato se convertem em cifras da viol\u00eancia, em esp\u00e9cie de raio x que descortina o modo como s\u00e3o eficazes no controle do corpo de quem os habita e no constrangimento aqueles que ousam circular pelas ruas. Ao artista n\u00e3o escapa sequer o efeito da ilumina\u00e7\u00e3o que incide sobre essa urbe de arapucas met\u00e1licas: o sol que se eclipsa nas malhas opacas derramando-as no ch\u00e3o, nas paredes e nos visitantes. Uma atmosfera dram\u00e1tica para melhor lembrar os limites estritos da vida que vivemos.<\/p>\n<p>Mas eis que o conv\u00edvio com o trabalho vai os poucos sen\u00e3o desfazendo a agressividade da malha ao menos demonstrando sua natureza amb\u00edgua e at\u00e9 mesmo divertida. Do hachurado denso reconhecemos ou pensamos reconhecer cadeiras, sof\u00e1s, lixeiras, outros objetos, ecos de objetos familiares. De abstrato, escorado que \u00e9 numa certa vis\u00e3o esquem\u00e1tica das cidades, o aglomerado de feixes de ferro ganha os contornos de uma narrativa, uma paisagem abrutalhada cujos personagens sumiram. Quem habitava essas constru\u00e7\u00f5es deixadas vazias e em sil\u00eancio? O clima contribui para que se eleve a sensa\u00e7\u00e3o de absurdo e insolitude. Homologamente ao campo de futebol, ponto de partida deste texto em que se pretende demonstrar a especial afei\u00e7\u00e3o do artista em pensar nossa capacidade em engendrar jogos, signos que variam do intang\u00edvel das palavras \u00e0 materialidade das grades met\u00e1licas, ENTONCES termina por nos revelar tamb\u00e9m a v\u00e3 tentativa do controle e da ordem, o fracasso das normas que deveriam ser obedecidas para que a vida em sociedade fosse um fluxo constante e organizado mas que, ao menos nas nossas experi\u00eancias, nunca, sequer Bras\u00edlia, logrou ser. A mobilidade latente dessas estruturas abertas atulhadas entre si alude a uma cidade perpetuamente em processo, que cresce para cima, para baixo e por dentro das sobras de uma cidade anterior, a come\u00e7ar, por exemplo, com as enf\u00e1ticas linhas tracejadas em branco sobre o asfalto novo e negro com que o servi\u00e7o de \u00e1gua, esgotos, telefonia ou cong\u00eanere, avisa a constru\u00e7\u00e3o iminente de uma trincheira. Detalhes como este s\u00e3o suficientes para deixar claro que a exist\u00eancia de qualquer uma das nossas cidades, consoante sua precariedade, ser\u00e1 por sua vez ef\u00eamera. O desejo de durabilidade, que em ENTONCES est\u00e1 latente na dureza do material, esbarra no ostensivo inacabamento das partes dessa cidade que, como um enorme jogo de dados composto por pe\u00e7as de conforma\u00e7\u00f5es vari\u00e1veis, parece existir por uma obra de um deus menor, um deus que face as desocupadas tardes da eternidade, n\u00e3o encontrou nada melhor a fazer a n\u00e3o ser arremess\u00e1-las ao acaso sobre o territ\u00f3rio deixando a espera que fiz\u00e9ssemos uso delas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por\u00a0Agnaldo Farias S\u00e3o Paulo, mar\u00e7o de 2004 Pensemos no jogo de futebol, esporte que o artista cultua e pratica com denodada bravura, na alegria antecipada da carona, na fila do ingresso, no alarido da turba abalroando-se, apressada em descobrir os lugares correspondentes, nos olhares excitados convergindo para o gramado, na entrada dos jogadores enfileirados, nosContinue reading &rarr;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2600"}],"collection":[{"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2600"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2600\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2601,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2600\/revisions\/2601"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2600"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2600"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2600"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}