{"id":2588,"date":"2018-09-06T17:16:23","date_gmt":"2018-09-06T17:16:23","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/?p=2588"},"modified":"2018-09-06T17:18:28","modified_gmt":"2018-09-06T17:18:28","slug":"carga-viva-2002-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/carga-viva-2002-2\/","title":{"rendered":"Carga Viva &#8211; 2002"},"content":{"rendered":"<h4>Texto do cat\u00e1logo da exposi\u00e7\u00e3o com Jos\u00e9 Bechara<br \/>\nna Celma Albuquerque Galeria de Arte em Belo Horizonte<\/p>\n<p>por Fernando Cocchiarale<br \/>\nRio de Janeiro, junho de 2002<\/h4>\n<p>\u00c0 primeira vista parece n\u00e3o haver qualquer afinidade entre a pintura de Jos\u00e9 Bechara e a escultura de\u00a0 Raul Mour\u00e3o apresentadas, em duas mostras individuais, na Galeria Celma Albuquerque. Entretanto, afora a proximidade geracional, uma ressalva, de imediato, as aproxima: elas n\u00e3o s\u00e3o propriamente pintadas e esculpidas, embora se desenvolvam a partir da amplia\u00e7\u00e3o <sup>(1)<\/sup>, promovida pela produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, desses dois campos tradicionais da arte. Tanto Bechara quanto Mour\u00e3o, utilizam-se de materiais e de m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o estranhos \u00e0queles convencionalmente aceitos pela pintura e pela escultura.<\/p>\n<p>Suas obras est\u00e3o, portanto, remotamente autorizadas por conquistas feitas desde o Cubismo, o Dada\u00edsmo e o Surrealismo. Por meio da colagem de materiais extra\u00eddos do cotidiano como fragmentos de jornal, fotografias, peda\u00e7os de tecido, tickets e tantos outros, estes movimentos romperam com os materiais estritamente ligados \u00e0 cria\u00e7\u00e3o artesanal de imagens, formas e cores, dentro das quais a pintura vinha se desenvolvendo at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>O objet trouv\u00e9 surrealista de Andr\u00e9 Breton (1924)\u00a0 e o readymade de Duchamp (1913) ampliaram as possibilidades abertas pela vanguarda hist\u00f3rica ao assumirem a apropria\u00e7\u00e3o de objetos <sup>(2)<\/sup> como uma atitude criadora resultante da escolha do artista.<\/p>\n<p>A apropria\u00e7\u00e3o de objetos e materiais, entretanto, n\u00e3o substituiu de modo imediato e generalizado os m\u00e9todos, materiais e meios convencionais. A conquista ou licen\u00e7a dessa incorpora\u00e7\u00e3o da vida, por meio da apropria\u00e7\u00e3o, pela arte parecia estar condenada ao confinamento nos limites estritos dessas tend\u00eancias contr\u00e1rias \u00e0 proposta formalista do modernismo hegem\u00f4nico.<\/p>\n<p>Foi somente quando o desgaste po\u00e9tico dos repert\u00f3rios abstracionistas no final dos anos cinq\u00fcenta foi dando lugar a um renovado interesse pela imagem, que a apropria\u00e7\u00e3o enquanto uma atitude pertinente \u00e0 cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica foi reavaliada. Ao longo dos \u00faltimos trinta ou quarenta anos a pot\u00eancia est\u00e9tica da atitude apropriacionista tornou-se consensual, mesmo entre aqueles artistas cuja obra mantinha-se fiel aos meios de express\u00e3o convencionais. Respons\u00e1vel, ao menos em parte, pela amplia\u00e7\u00e3o das possibilidades de inven\u00e7\u00e3o e experimenta\u00e7\u00e3o do artista de nossos dias, esta nova atitude vem se desdobrando nas m\u00faltiplas possibilidades nas quais a arte contempor\u00e2nea vem se manifestando.<\/p>\n<p>Mesmo assumindo essas refer\u00eancias renovadoras muitos criadores continuaram e ainda continuam sintonizados com os desafios da sobreviv\u00eancia, se n\u00e3o dos meios e m\u00e9todos, pelo menos do campo de quest\u00f5es acumulado pela hist\u00f3ria da pintura e da escultura. As po\u00e9ticas de Jos\u00e9 Bechara e Raul Mour\u00e3o coincidem nesse aspecto.<\/p>\n<p>Tradicionalmente as artes pl\u00e1sticas, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 musica e \u00e0s artes c\u00eanicas, sempre foram pensadas como artes do espa\u00e7o (Leonardo Da Vinci e Pierre Francastel, por exemplo) <sup>(3)<\/sup>. Para a pintura o tempo resumia-se ao tempo da execu\u00e7\u00e3o (o processo), \u00e0 indica\u00e7\u00e3o virtual do movimento dos motivos ou imagens de uma composi\u00e7\u00e3o naturalista, ou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o r\u00edtmica de formas da arte abstrata e construtiva. De qualquer maneira o tempo de um quadro era insepar\u00e1vel da interven\u00e7\u00e3o direta do artista, respons\u00e1vel por sua cristaliza\u00e7\u00e3o no plano pict\u00f3rico.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Bechara pinta a partir das marcas deixadas pelo tempo em objetos por ele apropriados. Inicialmente trabalhava com lonas de caminh\u00e3o danificadas pelo uso di\u00e1rio, trocadas por lonas novas com os caminhoneiros. Em seguida, intervinha sobre essas sequelas do cotidiano, oxidando-as. Ao intervir deliberadamente sobre \u00a0 fragmentos da gr\u00e1fica an\u00f4nima rotineira e casual\u00a0 produzida pela vida, ele os requalifica num outro tempo. Destaca-os do anonimato do fluxo do devir, para estanc\u00e1-los no cativeiro da obra. Os quadros atuais, embora mantenham esta l\u00f3gica, s\u00e3o feitos sobre um outro tipo de superf\u00edcie: couros brancos, extra\u00eddos de gado nelore, desde fetos, at\u00e9 vacas e bois adultos, raz\u00e3o pela qual pertencem, conforme designa\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio artista, \u00e0 s\u00e9rie Pelada.<\/p>\n<p>A\u00a0 escolha do couro de nelore possui indubitavelmente um car\u00e1ter crom\u00e1tico e gr\u00e1fico. Ele interessa a Bechara uma vez que sua alvura revela de maneira inequ\u00edvoca os registros deixados pela vida na pele destes animais. A esta acep\u00e7\u00e3o pl\u00e1stica somam-se outras esferas significativas, de teor simb\u00f3lico, ou de conte\u00fado sem\u00e2ntico.<\/p>\n<p>As ranhuras nos couros s\u00e3o mais que grafismos aleat\u00f3rios. Elas se tornaram tamb\u00e9m marcas de uma vida predestinada \u00e0 morte certa nos matadouros. Se a brancura dessas peles evidencia uma gr\u00e1fica da vida, por outro lado, ainda que somente como invis\u00edvel ind\u00edcio, evocam o vermelho do sangue derramado para que pudessem se tornar, agora, parte essencial de uma obra.<\/p>\n<p>No entanto n\u00e3o h\u00e1 aqui nenhuma inten\u00e7\u00e3o de den\u00fancia da viol\u00eancia espec\u00edfica dos m\u00e9todos de abate desses animais, ou algo parecido. A viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um tema ou uma a\u00e7\u00e3o direta da po\u00e9tica de Bechara mas, ainda assim, parte inelimin\u00e1vel de seu trabalho. Sem estas seq\u00fcelas, que tamb\u00e9m conotam o simples transcurso do tempo num mesmo objeto ou num \u00fanico corpo, sua obra n\u00e3o faria sentido.<\/p>\n<p>O desvio de materiais j\u00e1 desgastados por suas fun\u00e7\u00f5es originais, n\u00e3o art\u00edsticas, para edit\u00e1-los sob a l\u00f3gica da pintura, assimila estas marcas e cicatrizes ao sentido do trabalho. Entretanto, diferentemente das lonas de caminh\u00e3o, artefatos produzidos pelo homem e, por isso mesmo, \u00edndices de um tempo hist\u00f3rico, as Peladas s\u00e3o \u00edcones da pr\u00f3pria vida corporal e biol\u00f3gica, transformados em pintura.<\/p>\n<p>O branco das peles, as marcas de tetas e test\u00edculos coloridos e impressos pela natureza, combinam-se aos vest\u00edgios nelas gravados. Nesse sentido o artista continua nos trabalhos mais recentes a investiga\u00e7\u00e3o po\u00e9tica iniciada a partir das lonas de caminh\u00e3o oxidadas. Ainda que o sentido espec\u00edfico das lonas e das Peladas, difira bastante, a id\u00e9ia de tecer a obra\u00a0 a partir de materiais comuns ao fluxo concreto da vida e por ela marcados, permanece.<\/p>\n<p>Suas telas resultam portanto da interse\u00e7\u00e3o de dois tempos. Aquele das marcas feitas nos objetos pelo uso ou pela vida, antes de sua apropria\u00e7\u00e3o, e o das interven\u00e7\u00f5es do artista feitas a partir do car\u00e1ter casual dessas manchas e tra\u00e7os inscritos objetos por ele apropriados.<\/p>\n<p>Diferentemente de Bechara, Raul Mour\u00e3o n\u00e3o trabalha preferencialmente o espa\u00e7o planar e crom\u00e1tico da pintura. Tampouco se apropria de materiais marcados pelo uso e pela vida, embora utilize, sobretudo, mat\u00e9rias-primas n\u00e3o art\u00edsticas, destinadas \u00e0 fabrica\u00e7\u00e3o dos objetos utilit\u00e1rios. Trabalha portanto num campo sem\u00e2ntico situado entre a investiga\u00e7\u00e3o da tridimensionalidade, t\u00edpica da escultura, e a espacialidade volum\u00e9trica dos in\u00fameros objetos aos quais ligamos nossas vidas di\u00e1rias.<\/p>\n<p>Entretanto imp\u00f5e-se uma advert\u00eancia fundamental: sua po\u00e9tica difere essencialmente da estrat\u00e9gia de apropriativa de Duchamp. Ao contr\u00e1rio da l\u00f3gica do readymade, as apropria\u00e7\u00f5es feitas por Mour\u00e3o restringem-se, em sua maioria, \u00e0 esfera dos materiais de trabalho, determinada, com freq\u00fc\u00eancia, pela analogia entre a mat\u00e9ria-prima usada nos objetos reais que referenciam as recria\u00e7\u00f5es do artista.<\/p>\n<p>Centrado na simples remo\u00e7\u00e3o de utens\u00edlios industrializados de seu contexto original para o campo da arte, o readymade deliberadamente prescindia (ou reduzia ao indispens\u00e1vel) a interven\u00e7\u00e3o objetiva do artista. Seu car\u00e1ter est\u00e9tico decorria antes da atitude do que do fazer art\u00edstico.<\/p>\n<p>Esta n\u00e3o \u00e9 exatamente a l\u00f3gica dos trabalhos de Mour\u00e3o. Ele quase nunca utiliza objetos previamente produzidos. Toma-os, antes, enquanto refer\u00eancia de seu trabalho, jamais como modelos. Nesse sentido n\u00e3o existe aqui, tamb\u00e9m, por oposi\u00e7\u00e3o ao readymade, qualquer proximidade com a valoriza\u00e7\u00e3o do artesanato,\u00a0 da mimesis, ou de outras formas de\u00a0 representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Raul quer desconstruir a face utilit\u00e1ria das coisas de que nos servimos, excluindo da configura\u00e7\u00e3o dos objetos que projeta, todos os elementos que asseguram a funcionalidade de nossa rotina di\u00e1ria. \u00c0 infinita pluralidade dos utens\u00edlios, aparelhos, objetos e coisas corresponde, respectivamente, um in\u00fameros materiais. Se a po\u00e9tica de Mour\u00e3o, ao contr\u00e1rio da de Bechara, se reporta a esses artefatos, n\u00e3o h\u00e1 portanto como associ\u00e1-la a qualquer identidade, tanto no que se refere \u00e0s mat\u00e9rias-primas que o artista utiliza, quanto \u00e0 configura\u00e7\u00e3o dos objetos por ele constru\u00eddos.<\/p>\n<p>Todos os trabalhos recentes de Raul Mour\u00e3o, evidenciam a diversidade de materiais e meios de sua obra. Mecanismos tais como a altera\u00e7\u00e3o da escala dos objetos ( Cart\u00f5es, 2002), a proje\u00e7\u00e3o s\u00f3lida das sombras (Banco a Pino, 2002), a planariza\u00e7\u00e3o de objetos s\u00f3lidos (\u00c1rea de Queda, 2002) s\u00e3o essenciais para a desconstru\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica utilit\u00e1ria de \u00edcones do cotidiano para integr\u00e1-los poeticamente ao universo amb\u00edguo e poliss\u00eamico caracter\u00edstico da arte.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<ul>\n<li>(1) num sentido\u00a0 autorizado pela interpreta\u00e7\u00e3o tecida no texto A escultura no Campo Ampliado, de Rosalind Kraus, para caracterizar a nova condi\u00e7\u00e3o da escultura ap\u00f3s sua dissocia\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica do monumento.<\/li>\n<li>(2) A proposta do objet trouv\u00e9 formulada pelo surrealismo diferia do readymade Duchampiano. Se a primeira fundava-se na escolha de objetos de qualquer natureza pelo artista desde que assumida como um ato est\u00e9tico, a segunda proposta diferia da primeira pelo desejo de esvaziar o repert\u00f3rio autoral da composi\u00e7\u00e3o e da assemblage presentes na no\u00e7\u00e3o de objet trouv\u00e9.<\/li>\n<li>(3) respectivamente no Tratado da Pintura e no texto Espa\u00e7o Gen\u00e9tico e Espa\u00e7o Pl\u00e1stico, publicado mais de quatrocentos anos ap\u00f3s o primeiro.<\/li>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto do cat\u00e1logo da exposi\u00e7\u00e3o com Jos\u00e9 Bechara na Celma Albuquerque Galeria de Arte em Belo Horizonte por Fernando Cocchiarale Rio de Janeiro, junho de 2002 \u00c0 primeira vista parece n\u00e3o haver qualquer afinidade entre a pintura de Jos\u00e9 Bechara e a escultura de\u00a0 Raul Mour\u00e3o apresentadas, em duas mostras individuais, na Galeria Celma Albuquerque.Continue reading &rarr;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2588"}],"collection":[{"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2588"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2588\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2594,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2588\/revisions\/2594"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2588"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2588"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2588"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}