{"id":2578,"date":"2018-09-06T17:02:00","date_gmt":"2018-09-06T17:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/?p=2578"},"modified":"2018-09-06T17:11:50","modified_gmt":"2018-09-06T17:11:50","slug":"um-lugar-que-nao-existe-1996-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/um-lugar-que-nao-existe-1996-2\/","title":{"rendered":"Um lugar que n\u00e3o existe &#8211; 1996"},"content":{"rendered":"<h4>Por Marco Veloso, Novembro de 1996<\/h4>\n<p>\u201cI want to extend my art perhaps into something that doesn\u2019t exist yet\u201d, esta afirma\u00e7\u00e3o de uma conhecida escultora norte-americana diz quase tudo o que eu gostaria de colocar ao lado desta exposi\u00e7\u00e3o de Raul Mour\u00e3o. Sinceramente, vi muito pouco o que ele produziu, a n\u00e3o ser atrav\u00e9s de fotos, de desenhos e de alguns poucos papos que tivemos.<\/p>\n<p>Mas, fica-me a impress\u00e3o de algu\u00e9m altamente comprometido com o que faz. N\u00e3o quero dizer com isto que Raul seja um dos artistas que buscam identidade pela pseudo-seriedade com que encaram o mundo da arte. Ou, um daqueles que pelo cinismo, hoje em dia considerado uma postura inteligente, tentam definir o que \u00e9\u00a0 e o que n\u00e3o \u00e9 arte. Bad aesthetic times.<\/p>\n<p>N\u00e3o pretendo esclarecer muita coisa do que direi. De certo modo, as esculturas de Raul tamb\u00e9m adotam essa atitude. H\u00e1, por\u00e9m, um m\u00e9todo quase que constante. Objetos da vida cotidiana s\u00e3o arrancados de seus contextos, delicadamente, por uma po\u00e9tica lan\u00e7ados no ambiente da arte, feitos em ferro e, ent\u00e3o, agressivamente (?), inseridos numa linguagem art\u00edstica quase nonsense. Pode ser uma trave de futebol, uma vassoura, um gaveteiro ou um guardanapo sobre um copo. Se todo aquele que faz arte caracteriza-se por um estilo, este misto de viol\u00eancia (?)\u00a0 e sensibilidade s\u00e3o assinatura de Raul. Mas, n\u00e3o h\u00e1 regras em arte e Raul talvez nem mesmo tenha estilo.<\/p>\n<p>Raul \u00e9 meio avesso a contextos, inclusive, ao contexto de seu pr\u00f3prio trabalho. Se o pluralismo atual teve por origem, como afirmam alguns, a Pop Art e o Minimalismo dos anos 60, penso que Raul estaria, aparentemente, mas do lado deste \u00faltimo grupo. O importante \u00e9 que ele transita por diversos espa\u00e7os, sem que se constitua pela identifica\u00e7\u00e3o com um ou pelo somat\u00f3rio desses. O contempor\u00e2neo \u00e9 um sujeito que vive e trabalha entre espa\u00e7os (onde nada acontece), lugares, (onde as coisas se d\u00e3o) e n\u00e3o-lugares (lugares fora do lugar, chamados supermodernos). Penso em um lugar que, ainda n\u00e3o exista.<\/p>\n<p>\u201cMy art into something that doesn\u2019t exist yet. Listen to your heart. Respect your intuition and your manifestation. There\u2019s no limitation and no confusion. Have courage and rage. All together. I like Warhol\u2019s idea of Pop: a means of liking things. We face the future without a narrative of present. The thing is to think of nothing. Au reste, c\u00e9st l\u2019homme, beaucoup plus que l\u00e1uteur, que l\u00f3n verra partout; Je parle \u00e9ternellement de moi, et j\u00e9n parlais en s\u00fbret\u00e9, puisque je ne comptais point publier mes Memories. We just say c\u2019est la vie. Living in the post-historical period. Das Ende der Kunstgeschichte?\u201d<\/p>\n<p>Gosto muito do fato de que Raul valorize as id\u00e9ias.\u00a0 Ele n\u00e3o te leva, simplesmente, para um atelier e te apresenta uma s\u00e9rie de objetos, numa performance convincente. Ele fala de id\u00e9ias. Eu n\u00e3o vi quase nada do que faz. Somente, uma trave com a altura cortada pela metade, h\u00e1 alguns anos no Pa\u00e7o Imperial. Ele tamb\u00e9m me mostrou um carimbo, onde se l\u00ea \u201cFoda-se\u201d. Acho estranho, mas, aos poucos, gosto. Um carimbo formalizando uma estranha ordem. Uma ordem que \u00e9 mais uma desordem. Uma palavra-de-desordem. Um amigo diria, um brutalismo pl\u00e1stico verbal. Sei que Raul tem admira\u00e7\u00e3o por antrop\u00f3logos artistas e por poetas chacais. As atitudes s\u00e3o as mesmas; faz-se o sublime do banal.<\/p>\n<p>Aprecio, tremendamente, a eleg\u00e2ncia de diversos dos objetos que vi nas fotos que ele me mostrou. Viol\u00eancia (?) mais delicadeza, igual a eleg\u00e2ncia. Ele est\u00e1 distribuindo um livrinho sem p\u00e1ginas, s\u00f3 de capas. As quatro capas. Na segunda e na terceira, respectivamente, h\u00e1 uma foto de seu rosto com uma ma\u00e7\u00e3 equilibrada no topo da cabe\u00e7a e, na outra, uma arma apontada nesta dire\u00e7\u00e3o. Confesso que, a princ\u00edpio, n\u00e3o gostei. Pareceu-me meio agressivo, gratuito e citacionista. De repente, percebi que, quando o livro est\u00e1 fechado, as duas imagens adormecem paralelas e o poss\u00edvel tiro, necessariamente, se transforma no pr\u00f3prio livro sem p\u00e1ginas, dormindo e viajando, como uma id\u00e9ia viva. Aqui, Raul atravessou o rio e \u00e9 quase-Pop. A ma\u00e7\u00e3 \u00e9 um s\u00edmbolo b\u00edblico (Um livro-alvo?). A arma, um objeto de nosso mundo, excessivamente, real (Um alvo-livro?). O retrato, um auto-retrato sem retoques (A paz entre o alvo e o livro?).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Marco Veloso, Novembro de 1996 \u201cI want to extend my art perhaps into something that doesn\u2019t exist yet\u201d, esta afirma\u00e7\u00e3o de uma conhecida escultora norte-americana diz quase tudo o que eu gostaria de colocar ao lado desta exposi\u00e7\u00e3o de Raul Mour\u00e3o. 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