{"id":2574,"date":"2018-09-06T16:24:40","date_gmt":"2018-09-06T16:24:40","guid":{"rendered":"https:\/\/raulmourao.com\/?p=2574"},"modified":"2018-09-06T16:24:40","modified_gmt":"2018-09-06T16:24:40","slug":"preto-no-branco-e-ou-1994","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/preto-no-branco-e-ou-1994\/","title":{"rendered":"Preto no branco e\/ou &#8211; 1994"},"content":{"rendered":"<h4>por Paulo Herkenhoff &#8211; Texto do folder da exposi\u00e7\u00e3o coletiva<br \/>\n10 de maio a 19 de junho de 1994<br \/>\nGaleria da Escola de Artes Visuais do Parque Lage<\/p>\n<p>Amador Perez, Anna Maria Maiolino, Franz Weissmann, Maria do Carmo Secco, Mira Schendel, Manoel Fernandes, Raul Mour\u00e3o<\/h4>\n<p>Esta exposi\u00e7\u00e3o tem inicialmente o m\u00e9rito de reunir dois nomes matriciais da arte no Brasil desde o p\u00f3s-guerra: Franz Weissmann e Mira Schendel. Franz Weissmann est\u00e1 na base do projeto construtivo da arte brasileira, num, papel hist\u00f3rico em que o pioneirismo seria superado pela qualidade e intelig\u00eancia do seu projeto est\u00e9tico. Weissmann substituiu seu papel na cronologia pelo de agente da linguagem. \u00c0s suas superf\u00edcies inconturbadas no seu rigor construtivo, nas suas cores, no acabamento de seus planos, Weissmann op\u00f4s uma obra violenta, convulsa. \u00c9 como se uma revolta e uma ira pusessem \u00e0 prova todas as certezas do escultor concreto, e levassem \u00e0s conseq\u00fc\u00eancias \u00faltimas o resgate neoconcreto do sujeito n\u00e3o como uma bela alma sens\u00edvel, mas como agente de suas puls\u00f5es.\u00a0 O gesto de Weissmann nesse desenho ou nesta escultura caminha entre a borda do caos e condensa\u00e7\u00e3o de uma viol\u00eancia desconstrutiva. Como nos relevos amassados de Weissmann\u00a0 n\u00e3o \u00e9 suficiente pensar a obra como gestos e tra\u00e7os, mas como um campo organizado de energia pulsional. Do mesmo modo, um tra\u00e7o de Mira Schendel no espa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de composi\u00e7\u00e3o, mas a ativa\u00e7\u00e3o do vazio e da sua incomensurabilidade, atrav\u00e9s de um fato pl\u00e1stico essencial. Quanto mais aproxima-se da essencialidade tal dimens\u00e3o da obra de Schendel mais ganha contund\u00eancia. Cada monotipia de Mira Schendel releva-se como uma inst\u00e2ncia de um pensamento t\u00f3pico po\u00e9tico. Conforma um paradigma das rela\u00e7\u00f5es entre arte e filosofia. E n\u00e3o perde a sua capacidade de produzir perplexidade po\u00e9tica. Os desenhos sint\u00e9ticos de Mira Schendel parecem nos exigir na contempla\u00e7\u00e3o o momento imediatamente anterior \u00e0quele da constitui\u00e7\u00e3o do signo: o sil\u00eancio.<br \/>\nA obra gr\u00e1fica (livros, desenhos e gravuras) de Anna Maria Maiolino toma a folha como espa\u00e7o concreto. \u00c9 necess\u00e1rio compreender que este \u00e9\u00a0 seu momento de abandono da figura\u00e7\u00e3o anterior, em que tratava da condi\u00e7\u00e3o feminina por uma referencia ao fato pl\u00e1stico construtivo. Deve-se perceber que Maiolino referiu-se aqui \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o neoconcreta na virada da d\u00e9cada de 70 quando residia em Nova York, a um tempo em que o projeto construtivo brasileiro ainda n\u00e3o encontrava o s\u00f3lido resgate no texto de Ronaldo Brito (1975) e na curadoria de Aracy Amaral (1977). E muito mais distante ainda voga citacionista dos anos 80. A artista toma o corte e a dobra para estabelecer um jogo de avesso\/direto. A refer\u00eancia poss\u00edvel seria ao m\u00e9todo da escultura de Am\u00edlcar de Castro. A censura, o processo pelo qual Maiolino busca o reverso, revela e multiplica os planos. Sobre ele a linha infunde a necess\u00e1ria coesnao ao espa\u00e7o onde a mirada encontra m\u00faltiplas entradas e passagens. A folha ser\u00e1 ent\u00e3o um espa\u00e7o concreto, que se abre e desdobra-se em espa\u00e7o virtual, opera o vazio ativo, incorpora-se em tridimensionalidade.<\/p>\n<p>A obra de Amador Perez pertence \u00e0 ordem das imagens. O virtuosismo \u00e9 a trincheira de resist\u00eancia do car\u00e1ter verista da imagem, que recorre e embate-se com a fotografia e o pr\u00f3prio verismo da pintura cl\u00e1ssica. Gesto e olho fotogr\u00e1ficos aparentemente operam uma f\u00e1brica de duplica\u00e7\u00e3o real. E esse \u00e9 um real que sai da hist\u00f3ria da arte, sobre a qual o desenho de Amador Perez constitui-se num olhar privado. Como todo duplo, o artista produz uma veracidade falaciosa. De Blake a B\u00f6cklin, os referencias hist\u00f3ricos de Perez s\u00e3o falsamente submetidos ao filtro da fotografia (reprodu\u00e7\u00f5es fotogr\u00e1ficas impressas de obras de arte). H\u00e1 um c\u00e2mbio de corporeidade. A temperatura e a carnalidade da pintura transferem-se para o mundo de luzes e sombras e mineralidade do grafite. Essa migra\u00e7\u00e3o da imagem atrav\u00e9s dos meios, cria um encadeamento de duplas (o duplo do duplo), para encontrar, no final, um real novo, o desenho.\u00a0 O m\u00e9todo do desenho de Perez opera em dois p\u00f3los opostos da visibilidade: o excesso e a dilui\u00e7\u00e3o. Nas cita\u00e7\u00f5es Perez parece descarnar as pinturas, expondo-lhes \u201cuma\u201d estrutura de desenho, como acento dessa origem da imagem. No Seu \u201cNewton\u201d, a partir da obra de Blake, a anatomia do cientista parece entrar num colapso vertiginoso, como numa pane da lei da gravidade. O desenho \u00e9 declarado e celebrado. Mas seu tra\u00e7o tamb\u00e9m pode ser impercept\u00edvel, como um gesto ausente produzindo sombras. Agora, mais do que confirmar o virtuosismo ao o itiner\u00e1rio do gesto, a dilui\u00e7\u00e3o da marca nervosa do sujeito termina por ser uma afirma\u00e7\u00e3o \u00faltima do pr\u00f3prio desenho.<br \/>\nNa obra de Manoel Fernandes, o fundo inicial \u00e9 um campo de transpar\u00eancia. Funda-se o lugar gr\u00e1fico. Opera-se a substitui\u00e7\u00e3o do suporte abismal, o lugar pr\u00edmevo e espa\u00e7o neutro do desenho, pelo campo lavrado em aguadas. A\u00ed a percep\u00e7\u00e3o tem seu curso como um embate com as sombras, com a escurid\u00e3o e com excessos de luz. Entre o preto e o branco h\u00e1 cinzas infinitos. S\u00e3o camadas de luz, outras pesados de materialidade. Gesto, cada interven\u00e7\u00e3o \u00e9 uma trama de fen\u00f4menos visuais: transpar\u00eancia, opacidade, veda\u00e7\u00e3o, vazio, reflexos. O dialogo d\u00e1-se entre o signo e seu lugar, com o qual se funde como imagem e a\u00ed flutua. Um tra\u00e7o pode ser uma escritura, um risco a base de uma arquitetura m\u00ednima, constitui\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o mental em nova ordem. \u201cUso muito o desenho para pensar\u201d, diz o artista. Manoel Fernandes assume o papel cultural da linha para demarca\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios de visibilidade. No fundo est\u00e1 tratando reiteradamente dessa passagem constitutiva da natureza em arte.<\/p>\n<p>Nesta Exposi\u00e7\u00e3o a obra de Raul Mour\u00e3o parece deliberadamente propor uma confus\u00e3o. A mat\u00e9ria bruta, dos empastes de papel oleoso, contrasta no jogo de claro\/escuro gr\u00e1fico da \u201cfigura\u201d, linha gestual ou linha de contorno. O gesto espesso tem aqui um tempo retido na pastosidade distanciado daquele desenho que se toma como uma transitoriedade fluente. Se isso \u00e9 desenho, estranha \u00e9 sua apul\u00eancia corp\u00f3rea. Se isso \u00e9 pintura, marcante \u00e9 uma vontade gr\u00e1fica incorporada em carga pict\u00f3rica. No entanto, indagar se pintura ou desenho\u00a0 seria aqui d\u00favida ociosa, nesse processo hist\u00f3rico de expans\u00e3o do campo das linguagens. O contexto produz a leitura do \u201cdesenho\u201d e dai v\u00ea o conseq\u00fcente movimento de ressaltar a dimens\u00e3o \u201cpintura\u201d. \u00c9 a persist\u00eancia din\u00e2mica de seu paradoxo. Nessa obra pode ainda ser encontrada uma disparidade de humores. H\u00e1 jogos visuais graves, severos. H\u00e1 outras ir\u00f4nicos. A conseq\u00fc\u00eancia centra-se num vocabul\u00e1rio de estranhezas, de formas primitiva, fantasm\u00e1ticas.<\/p>\n<p>O desenho de Maria do Carmo Secco est\u00e1 aqui como um elo. Est\u00e1 para que a obra dos demais artistas pudesse ser organizada de modo coletivo no contexto de sua mostra individual simult\u00e2nea. Cumpre, antes da remiss\u00e3o\u00a0 ao texto espec\u00edfico sobre a artista, referir a obra se Secco como uma fidelidade e uma cren\u00e7a no desenho no fluxo de sua linguagem. \u00c9 o seu exerc\u00edcio da s\u00edntese.<\/p>\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o talvez mais exatamente revelasse o olhar de Maria do Carmo Secco. A artista desempenha a curadoria como uma mirada sobre sua alteridade na arte \u2013 o outro enquanto desenhista. Seco olha Mira. O conjunto de desenhos em sua diversidade revela-se como ocorr\u00eancias da esfera privada da express\u00e3o e da reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>No Caso de Amador Perez, a dimens\u00e3o \u00e9 confessional, constituindo-se cada desenho em um mapa intimo. A exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 um outro n\u00edvel de revela\u00e7\u00e3o\u00a0 da l\u00f3gica da sensibilidade de Secco. E\/ou&#8230; talvez seja o espa\u00e7o do inepreens\u00edvel de toda curadoria, por mais que um curador busque o imp\u00e9rio do calculo racional. O tr\u00e2nsito entre seu desenho e o desenho do Outro \u00e9 um mapa de afinidades eletivas, como se sua mostra fosse um gesto goethiano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Paulo Herkenhoff &#8211; Texto do folder da exposi\u00e7\u00e3o coletiva 10 de maio a 19 de junho de 1994 Galeria da Escola de Artes Visuais do Parque Lage Amador Perez, Anna Maria Maiolino, Franz Weissmann, Maria do Carmo Secco, Mira Schendel, Manoel Fernandes, Raul Mour\u00e3o Esta exposi\u00e7\u00e3o tem inicialmente o m\u00e9rito de reunir dois nomesContinue reading &rarr;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2574"}],"collection":[{"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2574"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2574\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2576,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2574\/revisions\/2576"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2574"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2574"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/archive.raulmourao.com\/portfolio\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2574"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}