por Paulo Reis
Rio de Janeiro, outubro de 2005
Brasil é um país onde o Surrealismo não fez escola. O Brasil é um país por demais surrealista, onde o real sempre suplantou a fantasia, para que o sonho e o automatismo pudessem ditar normas. A ópera bufa foi montada desde a chegada dos portugueses: um teatro religioso para um povo alheio aquela encenação. São quinhentos anos na busca de encontrar o outro, alteridade desgovernada, diria. Hoje a realidade deixa de ser surreal para ser supra-real. Os fatos poderiam ter saído de uma comédia de erros de João Caetano, ma está mais para uma comédia popular de João Bettencourt intitulada “Dólar, cuecas, carecas, mensalões e afins”, pois nunca chegaria a uma fina ironia wildeana da importância de ser honesto.
É desta visão nada plausível que o artista Raul Mourão elabora uma crítica contundente, risível até, mas não menos ácida sobre algo triste e trágico… Enfim, o artista vive a realidade que é comum a todos e como tem a capacidade da transubstanciação, oferece-nos arte. Na mostra Luladepelúcia, na galeria Lurixs, o artista expõe uma instalação com bonecos de pelúcia, desenhos em grafite sobre papel e trabalhos a 4 mãos, todas as obras tomam a figura do Presidente Lula como ponto de partida. Não se trata de nenhuma homenagem, mas sim de um desagravo.
Da mesma maneira que Raul utiliza-se de objetos do cotidiano que nos ferem a visão e nos agridem – como as grades que poluem os espaços urbanos – o artista se apropria de uma imagem que nos invade a retina, toma conta de nossa vida. Ante a resignação, o humor inteligente usado como arma. A série, segundo o artista, surgiu ainda em janeiro de 2003, mas de lá pra cá muita coisa mudou. Dou voz a Mourão: “O que era apenas um trabalho de arte cheio de ironia e bom humor se transformou num brinquedo assassino. Parece que o PT assumiu o governo para destruir o país. Lula é um personagem desorientado. A realidade mais uma vez superou a ficção. As piadas já chegam prontas: dinheiro na cueca, instintos primitivos, um tesoureiro chamado Jacinto Lamas, um publicitário-Kojak e um bispo-deputado carregando malas de dinheiro. O governo é um prato cheio para os humoristas, seria cômico se não fosse trágico”.
A charada foi desvendada. Vendido no camelódromo Luladepelúcia corre o risco de se transformar em boneco de vodu, personagem do despacho na encruzilhada, coberto de alfinetes, sem cabeça, malhado como Judas na Sexta Feira Santa. Hoje o personagem está a salvo, abrigado na galeria, mas ainda nos assombra vê-los autômatos, clonados, desorientados com expressões estranhas de Chucks. Retrato de nau a deriva, afinal “morre o homem, fica a fama”, diz a canção. Melhor, fica a arte, diria Raul Mourão com seu exército de lulasdepelúcia. Um souvenir do nosso tempo. A esperança é a última que morre, o esperançoso morre antes.