O mundo antes do disparo – 2018

por Luisa Duarte

Quando vi pela primeira vez as esculturas de Raul Mourão nas quais os seus conhecidos Balanços se equilibravam sobre diferentes garrafas de vidro vazias, foi como se me deparasse com uma espécie de estranho familiar. A garrafa desempenhava ali o papel de um intruso em território conhecido. As esculturas geométricas construídas somente em aço traziam, inesperadamente, um índice da vida mundana com sua temperatura própria e uma fragilidade até então inaudita. Tal gesto, aos meus olhos, instaurava uma nova perspectiva de significados para um procedimento já conhecido da produção do artista, ou seja, estava forjado um estado de estranhamento dentro de uma situação familiar.

Sabemos que nos Balanços, feitos somente com aço, a potência está dada pela junção improvável entre peso e leveza, na qual a rigidez do material é contaminada pela vibração lúdica do movimento. Como já foi observado, tal encontro de contrários tem como uma das causas o fato de tais esculturas surgirem de desenhos de Raul. Ou seja, na gênese dessas obras, tão seguras e altivas, encontra-se um traço ensaístico, imprevisível, amigo do risco. É dessa insuspeitada irmandade entre opostos que ascende boa parte da força desses trabalhos.

Essa poética calcada em constantes fricções encontra um momento ímpar no vídeo Bang Bang (2017). Ao longo de seis minutos, seis diferentes esculturas forjadas por essa combinação de elementos – a geometria em aço e a garrafa de vidro – têm a sua parte mais frágil alvejada por um tiro certeiro. Não sabemos de onde parte o ataque. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis obras têm a sua base estilhaçada. Ou seja, não interessa aqui o aniquilamento de um trabalho específico, mas sim nos é dado a pensar qual o sentido das sucessivas repetições de um mesmo tipo de golpe.

Ao incorporar a arma de fogo como parte da obra, o tema da violência volta à produção do artista. Lembremos que Raul realizou, ao longo de vários anos, inúmeros trabalhos que faziam remissão direta às grades que povoam os centros urbanos, aludindo assim a uma visualidade que encarna o medo da violência nas grandes cidades do país. Nas palavras de Paulo Herkenhoff, essas esculturas em aço, realizadas a partir de 2001, tratavam da “geometria do medo em contexto histórico preciso”.

Raul pensa e realiza Bang Bang à luz dos acontecimentos de 2017, quando a arte contemporânea brasileira se tornou alvo da sanha fascista que assola o Brasil, nos fazendo testemunhar inúmeros casos de censura à liberdade de expressão.1 O vídeo pode ser lido, portanto, como uma resposta ao momento no qual a arte se tornou alvo de forças violentas. Mas, note-se, Bang Bang jamais ilustra tal situação, o que o tornaria panfletário.

Antes instaura um acontecimento poético marcado pela concisão. A garrafa, a forma geométrica em aço, o registro cinético ali investido que coloca tudo em um equilíbrio tênue: o artista cria uma cena a um só tempo lúdica e rigorosa, afetiva e sóbria, delicada e tesa. Espécie de ampulheta que conta um tempo que pode, a qualquer momento, se romper. Encontro de opostos: as garrafas vazias plenas de memórias que trazem inúmeras possibilidades narrativas e as formas geométricas metálicas fechadas em si mesmas.

Os ataques impetrados contra cada garrafa, exibidos em câmera lenta, anunciam um tempo sem trégua, o estilhaçamento de um equilíbrio (im)possível. Afinal, os ataques direcionados ao campo da arte não foram permeados por algum grau de elaboração crítica, mas antes se caracterizavam por uma vontade de completo silenciamento – aniquilamento mesmo – do discurso do outro, do diferente. Ou seja, o tiro certeiro cujo autor é anônimo de Bang Bang emula, justamente, essa relação privada de todo e qualquer esforço de reflexão e diálogo.

Se pausamos o vídeo em 24 segundos, um átimo antes do primeiro disparo, somente a trilha sonora pode evocar que algo grave e inconciliável está por vir. Pois a escultura de Raul nada mais é do que a prova da chance de uma potência oriunda do encontro de opostos. Essa enunciação visual de um equilíbrio possível entre diferentes – as formas geométricas universais e a gambiarra instaurada pelas garrafas vazias – e a beleza dali derivada é a prova de que, no território da arte, é tecida a chance de inaugurarmos, diariamente, aquilo que no chamado mundo real por vezes nos parece inviável.

Enquanto lá fora tudo parece inconciliável, guerra entre surdos, o artista edifica uma alegoria sobre esses tempos sombrios valendo-se daquilo que faz melhor: uma tradução da experiência da vida orientada pela distância crítica que não permite que a tradução caia no mero gesto ilustrativo. Ou seja, o seu Bang Bang versa, sim, sobre a violência infligida contra a arte, mas também é, a um só tempo, um atestado de resistência da arte. Prova da sua capacidade de nos endereçar, em meio a um bang bang sem perspectiva de fim, o anúncio de um equilíbrio possível no qual a potência do vivo se dá, justamente, no encontro calcado pelo encontro entre diferentes. Se a realidade nos lança em um niilismo paralisante, a arte ainda pode salvaguardar a nossa capacidade de imaginar outro mundo possível, mais próximo daquele evocado pela obra de Raul Mourão antes de cada disparo.

1 Em 2017, uma série de exposições foram alvo de censura no Brasil. Para maiores detalhes sobre esse assunto, veja o dossiê (inglês) “Brazilian art under attack”. Jacaranda, n. 6.