Luladepelúcia – 2005

por Daniela Labra
Rio de Janeiro, agosto de 2005

Estamos vivendo tempos de perplexidade e estupor. Novamente, fomos pegos de surpresa. Entretanto, ao contrário do que se pode imaginar, esta série criada por Raul Mourão, que tem como base a imagem do presidente Luís Inácio Lula da Silva, não é um ataque indignado ao escândalo político que assola a nação, desde junho de 2005.

Em boa parte de sua pesquisa, Raul se utiliza da ironia e do humor. Aqui, outra vez, essas características surgem, antecedendo uma denúncia de fato. Seus trabalhos enfocam, em geral, elementos do cotidiano urbano e da esfera pública: as grades de segurança, o futebol, os vira-latas nas ruas  e até artistas pendurados nas paredes de galerias, suscitando sutil  reflexão sobre nossos sistemas culturais, políticos e sociais.

A idéia da série Luladepelucia surgiu, ainda em janeiro de 2003, quando a população e a mídia saudavam, com euforia e reverência, o novo presidente. Relembra Raul: “o Presidente não podia aparecer em público; uma  multidão estava sempre a postos para pedir um autógrafo, tirar fotos ou, ao menos, tocá-lo”. Percebendo que o maior líder nacional era tratado como um astro pop, Raul lançou a piada: fazer um Lula de pelúcia, entregá-lo a população deslumbrada e deixar ou esperar o homem trabalhar.

Em 2004, a história transformou-se em trabalho de arte. Além da peça em pelúcia, a série conta com impressionantes desenhos (grafite sobre papel) do esqueleto do boneco-presidente e uma animação digital dos processos de construção virtual da escultura-brinquedo, que dá nome à exposição. A animação, que seria um “making of” do trabalho, acabou ganhando a autonomia de uma obra pronta. As obras desse conjunto são ramificações de uma mesma idéia e um mesmo tema: o boneco felpudo do personagem Lula para, como diria Raul, a militância dormir abraçada e a oposição espetar alfinetes de vodu. A fabricação dos bonecos de pelúcia Lula, por processo industrial, permite uma tiragem extensa e torna a obra metáfora de objeto popular pensado para a alegria e o consumo das “massas”.

A apropriação da imagem de uma personalidade pública e influente, aproxima o trabalho de Raul da obra de artistas que se valem da ironia e do  humor para comentar o universo da mídia e seus astros da política ou da cultura, como é o caso do italiano Maurizio Cattelan e do norte-americano Jeff Koons.

Raul assumiu a piada como arte, mas este momento, por sorte ou por azar, coincidiu com o vendaval de acusações que assola os jornais, as tvs e as consciências políticas. Assim, o  tom sardônico da sua obra foi aumentado pelo próprio contexto midiático e político a ela externos: se, antes dos escândalos, Luladepelucia não passava de brincadeira, talvez ironia, na conjuntura de hoje e de acordo com as notícias de amanhã, pode ser entendido como ataque veemente ou homenagem cândida ao Presidente da República. O  trabalho é do artista e o sentido mais profundo de sua mensagem permanece aberto ao julgamento do povo e ao desfecho deste mandato.

Vivemos tempos perplexos.