por Paulo Roberto Pires
publicado no site No Mínimo
Fevereiro de 2006
Comprei um Freud de pelúcia. É um Freud velho, é verdade, mas por isso mesmo parece experiente. Tem barba branquinha, óculos de aros grossos e fica sempre sentado, enfatiotado num terninho preto. Espero que ele me conforte e explique por que em nosso querido Bananão, e só aqui, uma outra criatura-piada de pelúcia, o Lula, nasceu como “arte” e, mais incrivelmente ainda, virou moda-cabeça para quem tem R$ 1 mil (!!!!!) sobrando e/ou gosta de tirar uma onda como FHC – que não perde uma chance de lustrar seu passado e foi para a imprensa dizer que “também tinha o seu”.
Nada contra o artista Raul Mourão, que confeccionou e vende os bonequinhos artísticos com grande êxito. Mas muito melhor do que a tralha conceitual que se tem de aturar para dar pedigree artístico a uma piada é a irreverência da Associação dos Filósofos Desempregados, que produz e distribui não só Freuds de pelúcia mas também Ches, Cristos, Budas e Virginias Woolf. É a hilariante série Pequenos Pensadores, todos fofos, que pode ser vizualizada no site.
A idéia da Associação é implacável: produzir trecos e coisas engraçadas pode ser tão gratificante quanto “provar questões eternas”. Sem teoria e com muita idéia boa, os “dois irmãos” – que assim se identificam como donos do negócio – dedicam-se a pensar relógios com a cara de Lênin, copos de Martini com a grife de Dorothy Parker (grande consumidora do produto), fronhas para travesseiros estampadas com citações de Shakespeare e um grande elenco de políticos e artistas – de Saddam Hussein a Monet – sob a forma de… fantoches de dedo. Isso mesmo.
Mas o ponto alto deste piradíssimo catálogo são os bonequinhos de pelúcia. “Recomenda-se retirar esta etiqueta antes de presentear crianças e intelectuais”, diz o papelucho amarrado a cada um deles. O Edgar Allan Poe e seu olhar soturno vem com um pequeno corvo pousado no ombro. O Van Gogh, ruivinho, tem uma “orelha destacável”, grudada a velcro. E o Nietzsche, de terno cinzento, nunca foi tão bigodudo. É divertido o Che Guevara com cara de mexicano da piada, e imbatível o Gandhi devidamente envolvido por panos brancos. Estão ainda na lista Beethoven, Emily Dickinson, Richard Wagner, Sócrates e Darwin, entre outros.
Um dos lançamentos mais recentes junta as referências cultas dos produtos com os puppies: trata-se de um boneco idêntico à desesperada figura de Münch na tela “O grito”. O brinquedo foi batizado “O grito gritante”, pois ao ser apertado na barriga, o expressionista personagem emite um sonoro e desconcertante ruído. Para ficar no terreno das artes, é uma espécie de antítese de nosso Lula.
Em tempo: o Lula de pelúcia, que é arte, vale mil reais. O Freud, que é brincadeira, 15 dólares. Isso deve explicar tudo. Não é, Doutor Sig?