Cego só Bengala – 2003

por Daniela Labra
São Paulo, agosto de 2003

As estruturas-esculturas da série Grades, de Raul Mourão, são fruto da pesquisa cotidiana que o artista desenvolve sobre elementos rueiros: cães, sinalizações, objetos bizarros, gradis, frases. Interessado na sobreposição de materiais e na interseção de suportes e formas, Mourão tem no seu trabalho um ponto de confluência de muitas referências e experimentações. Sua obra se dá em meios diversos como o vídeo, pintura, fotografia, escultura, desenho e performance, sem que ele, no entanto, busque se enquadrar numa determinada modalidade de produção artística. Raul observa as surpresas visuais e sensoriais que a cidade oferece e, sempre armado com uma câmera fotográfica, registra o insólito do mundo urbano que muitas vezes escapa ao olhar do passante menos atento. As fotos apresentadas junto com Grades, fazem parte da série Drama.doc, de registros dessas imagens colhidas nas ruas.  Numa paródia provocativa, Mourão recorta determinada situação do panorama geral da urbe e a cola no espaço físico reservado à Arte. Sobre seu particular fascínio com grades, o artista explora não só a questão social embutida na histérica importância dada a essas estruturas, mas principalmente o lado plástico do absurdo anti-estético de muitas construções que acabam por transformar-se em “sub-arquiteturas”, em nome de uma segurança reforçada. Tendo o cotidiano como fonte de criação, o artista crê que os objetos da rua falam sobre o mundo e para ele.

A cidade nos serve diariamente um banquete de visualidades e sensações mas, acostumados com aberrações ao redor, passeamos incólumes pelas vias congestionadas de sujeiras e maravilhas, e esquecemos que tudo o que se vê é produto e conseqüência de nós mesmos. Além do público treinado para a Arte, a obra de Raul Mourão tenta chamar a atenção daqueles que roçam diariamente o caos e não percebem, e que aceitam absurdos urbanos porque simplesmente não os reconhecem como um corpo doente em seu próprio entorno social.