por Guilherme Gutman
Bala perdida.
ou
“Não admitir, em nenhum caso, a poesia”1 ou
Desde que existe arte, existe o desejo de destruir arte.
Sobre um filme de Raul Mourão.
A espera pelo que está por acontecer é tão ou mais angustiante do que quando o tiro parte. Já então sem o benefício da dúvida, há um conforto estranho em se saber que o ato tragicômico,2 inelutavelmente, já aconteceu.
Sem que se saiba de onde vem o tiro, o temor maior – icônico – é o de que a bala seja mais rápida do que a câmera.
A espera pelo que vai acontecer é muito longa; ainda que não o seja, já que o seu tempo foi medido pelo metro mal nascido das normatividades de nossa época.
O tiro parte severo. Seguro de si mesmo; inexorável, em um movimento assertivo; sem dúvidas, tal como a engrenagem de locomotiva. Sem volta. Tiro máquina.
Nenhum grito. A luz bem baixa do estúdio indica que é cedo ou tarde; neblina ou sereno na cidade. Ninguém corre, ninguém grita, ninguém vê.
Tudo passa, depois que o tiro partiu.
O tiro parte em meio a uma ambiência sonora sinestésica, tal como em um filme de Kubrick: Paths of Glory (1957), Dr. Strangelove (1964), The Shining (1980), Full Metal Jacket (1987), Eyes Wide Shut (1999).
O som da garrafa quando corrompida pela bala bélica é diferente da onda que explode
ensurdecedora e intensa na praia da cidade.
Bala bélica, besta bondosa.
Bala dadá; bala dada a aliterações.
Bala que parte, que zune e que zurra; que zomba e arromba.
Bala zoomórfica; cão que morde.
Depois do movimento centrífugo dos muitíssimos fragmentos de vidro que pulverizam o ar, a garrafa já é outra.
Agora a garrafa é um tapete irregular de vidro, sobre o qual pousa a estrutura de metal da escultura. Vidro que se oferece como leito para o elemento oxidado; vidro que se mistura
à ferrugem, que sustenta o metal que, havia pouco, a garrafa sustentava.
***
A primeira impressão é a de que a peça de metal da obra cinética se preserva após o tiro; mas não. A garrafa desfigurada incorpora o trabalho, pela violência da bala plúmbea e fria que não soube esperar o tempo de também se dissolver docemente, em seu próprio processo de oxidação.
Garrafa que gira em seu gargalo o seu ritmo3 único; o pêndulo das esculturas cinéticas de
Raul resta só, em cena, como os atores dos monólogos dos gigantes da dramaturgia.
Algum de nós saberia dizer o que é girar absolutamente só, Like a rolling stone?4
O trabalho que então protagoniza o filme de Raul Mourão é composto pela peça de metal, pela garrafa de vidro e pela incidência do projétil. O tiro parte. A garrafa se estilhaça. A peça de metal samba só.
Raul esteve desde sempre atento à cidade em que vive; atento também a todas as outras cidades, pensando desde 1988-9 sobre as grades feias que, desde então, ornamentaram grotescamente os prédios: excrescências, vegetações que, de algum modo, noticiavam a violência urbana brasileira, em especial aquela da cidade do Rio de Janeiro.
Observando a dinâmica das ruas, as estratégias de sobrevivência, as setas de orientação que a cidade confusamente apresenta e que sugerem caminhos confusos, Raul completa o giro, ao fazer das vegetações florescências e, no movimento da volta, de novo à excrescência.
***
No rádio de pilha, no walkman, no mp3, também morre quem atira,5 sorrindo os seus dentes de chumbo.6
Virou notícia? Todos os dias, como as manchetes em páginas de jornal, tingidas em vermelho, cobertas por pano negro,7 que só a “tração animal” pôde revelar.
Há consolo? Apenas o de Ivens Machado.8
Há esperança? Apenas aquela que virá de Bispo do Rosário, no dia do juízo final.9
Tem vida curta, a bala que já partiu; como inseto que vive apenas um dia.
Mas não há licença poética para a bala que parte; há assombro, há susto e desconcerto.
Toda poesia só pôde ter sido escrita antes ou após a sua partida.
Bala que parte não volta. Volta a notícia. Volta o grito.
Depois de tudo, o som baixa; silencia em mutismo urbano e tenso.
Desde que existe a arte, existe a vontade de destruição da arte.
1 Sócrates; Platão.
2 Cômico tal qual o modo como o utiliza Dante (1265-1321), em sua Divina comédia, ao deixar a mitologia ou os dramas históricos para falar da vida da gente comum.
3 Uma espécie de idiorritmia, na concepção de Barthes, em Como viver junto (curso no Collège de France, 1976-7).
4 Muddy Waters; Bob Dylan; Jimi Hendrix.
5 Billy Roberts; Jimi Hendrix; O Rappa.
6 Paulinho da Viola.
7 Repressão outra vez: eis o saldo (1968), de Antonio Manuel.
8 O Consolador (1979), concreto armado e vidro.
9 Muro no fundo de minha casa (sem data), madeira, concreto e cacos de vidro.