por Francisco Bosco para a exposição MOTO
Fevereiro de 2014
O motor da obra de Raul Mourão – a partir de certo estágio de formulação em que a obstinação das questões indicia a consolidação de um olhar, um gesto, uma singularidade – é, no meu entender, uma tensão que se poderia nomear, por uma cadeia de oposições, como aquela entre o mundo e a forma, o concreto e o abstrato, o significado e o significante, a heteronomia e a autonomia. Essa tensão em geral começa por se mostrar irredutível, sem síntese, sob a forma de um duplo que instaura um mecanismo de presença/ausência, desdobrado pelo artista em diversas possibilidades, e tende a rumar para a prevalência do formal. Outras vezes, como no caso de sua conhecida série sobre o ex-presidente Lula (Luladepelúcia, Luladegeladeira, Luis Inácio Guevara da Silva), essa tensão se resolve em obras que sintetizam significado e significante, sentido e sensível, comentário social realizado como forma e material. Mas geralmente, repito, prevalece uma espécie de tensão, que não separa nem funde seus elementos. Nessa mostra, MOTO, tal tensão-motor está recolocada em um conjunto que ilumina o sentido geral de sua trajetória, consolidando-o, aprofundando-o e conferindo-lhe novas inflexões. Percorramos os “capítulos” da exposição, para tornar mais concretas essas observações abstratas.
É possível dizer que MOTO começa de onde é o começo de tudo para Raul Mourão: a rua, o vivido, o imediato. O primeiro capítulo é dedicado (também no sentido homenageante, in memoriam, da palavra) ao artista chileno Selarón, encontrado carbonizado na escadaria azulejada da Lapa que era a sua própria obra. Suicidaram Selarón, chama-se o conjunto. O título irônico remete o original de Artaud (Van Gogh, o suicidado da sociedade) à sua versão brasileira: menos a opressão da moral do que a trama cínica entre a ordem e a desordem (de que a Lapa é, de resto, o berço histórico no período republicano de nossa história), envolvendo polícia, traficantes, imprensa, governantes, em cujo jogo sujo o artista foi “suicidado”. In media res, MOTO abre apresentando uma foto do corpo de Selarón sendo “velado” (foto: Bruno César/AFP) em todos os sentidos da palavra, pelo olhar acobertador da polícia (de que o corpo coberto é uma metáfora), por sua vez inquirido pelo olhar de um cidadão, que tem à sua esquerda um homem triste vestido em traje social (caracterizando a porosidade de classes da cidade) e, mais à esquerda, um homem desolado. Vela ainda o corpo de seu autor a própria obra de arte pública, o assassinato do artista não deixando de ser uma metonímia do assassinato da arte pelas instituições políticas.
Como numa espécie de narrativa, ao capítulo sobre Selarón segue-se o capítulo #setaderua, que retoma uma série explorada por Raul Mourão há alguns anos. Se Suicidaram Selarón se consagra ao puro imediato, à sua violência amorfa (tendo, entretanto, como duplo de fundo a obra de arte e seu mundo da forma), #setaderua introduz mais explicitamente a tensão entre o imediato e o meio, o concreto e o abstrato, o sentido e o sensível. Em toda a série, o que vemos são composições fotográficas e pinturas que perfazem variações dessa tensão, como se o olhar do artista não cessasse de se espantar com a emergência e a perseverança do formal em face à sua funcionalidade. Assim, as setas de rua são sentido (função) e sensível (forma). Cumprem suas funções de desviar, cercar, orientar – e ao mesmo tempo transcendem essa utilidade, afirmando-se como forma, grafismo, composição, e remetendo o olhar aos momentos de maior autonomia formal da história da arte moderna.
Essa ambivalência entre a função e a forma é mais explicitamente colocada sob o mecanismo do duplo, de que venho falando, no capítulo #agradeeoar. Retomando sua série sobre as grades, o artista cria uma rua de mão dupla, onde as três primeiras fotografias expõem as grades em seu habitat social, mundo dos objetos onde sua forma desaparece na utilidade. Já nas esculturas, o processo é invertido e agora é a utilidade que desaparece, por meio da supressão do ambiente, fazendo emergir, em primeiro plano, a forma. Tal como no Vaso de Rubin da Gestalt, há um jogo de presença e ausência, de proscênio e fundo de cena: a função é assombrada por seu duplo, que é a forma, e vice-versa. Há um outro na imagem, indissociável, mas fantasmático, como a melodia de uma canção que toca silenciosa em nossa mente quando lemos uma letra de música; ou, inversamente, uma letra que lemos, no fundo dos ouvidos, quando escutamos assobiada a melodia de uma canção conhecida.
O capítulo seguinte desdobra e avoluma esse deslocamento de ênfase do significado para o significante, que é uma operação chamada pela crítica Luisa Duarte de “secamento”: uma tradução do vivido orientada por uma “assepsia, um enxugamento, um distanciamento do sujeito dessa vivência da experiência.” A série das grades, “geometria do medo”, como a chamou o crítico Paulo Herkenhoff (portanto forma e afeto, estabilidade e movimento), reencontra sua evolução em estruturas de maior escala e já francamente autônomas, como as expostas na mostra do MAM carioca de 2012, Tração animal, cujas obras realizam uma “disfuncionalização do funcional”, como observou o crítico e curador Luiz Camillo Osório. Como num arranjo orquestral, essas estruturas se somam às setas de rua, devidamente “secas”, e incluem ainda o elemento das luzes e sombras para formar o apogeu dessa passagem da grade ao grid, do movimento real ao movimento abstrato, categoria filosófica fundamental. Não por acaso o artista chama esse conjunto de trabalhos de Obra. Também ele se abre com imagens da rua (a foto intitulada Little Richard em homenagem aos artistas Richard Serra e Fernanda Gomes), onde se percebe a mesma tensão entre os objetos funcionais e sua forma pura, para logo em seguida enxugar a experiência pela forma. Obra, assim, é o capítulo que reúne os elementos e ilumina o sentido predominante dessa trajetória; é o processo e seu resultado; é o material de construção e o construtivismo; é, nas palavras do artista, o que “junta diversas experiências vividas e as transforma em obras.”
Live apresenta um único registro, incidindo, como o título indica, sobre o incêndio do vivido, procurando capturá-lo no meio frio da fotografia. Por fim, Brog (Brog é o nome do blog de Raul Mourão) recebe duas imagens de outros artistas (Gustavo Prado e Joshua Callaghan), sugerindo que o motor da aventura existencial é também os outros, e que não se cria uma obra sem companheiros de olhar. Afinal, como disse um poeta – habitado, ele, pela tensão entre o registro primal do rock e a sofisticação do concretismo: “não há sol a sós.”