Elogio da instabilidade (prelúdio a uma colisão provável) – 2010

por Jacopo Crivelli Visconti

“A arte é o que torna a vida mais interessante do que a arte…”
Robert Filliou

Passear pelas obras de Raul Mourão é um pouco como andar na rua: dá para ouvir a voz da cidade, sentir sua presença, tocar suas grades, suas casas, sua natureza sufocada; admirar seu futebol, seus Carnavais e seus artistas; aprender a conhecer seus cachorros, suas árvores, seus políticos, e todas as suas cores. O ateliê do artista (pode ser que de todo artista, mas de Raul Mourão em especial) é o lugar onde essa cidade para, e os encontros que ali acontecem sugerem que, talvez, seja também um ateliê para a cidade. Encontros programaticamente casuais, como o da máquina de costura e do guarda-chuva na mesa de dissecação, ao lado de um globo ocular malhando abdominais. O surrealismo de Raul Mourão é quase imperceptível, mascarado pelo acabamento impecável das obras e pela seriedade irônica com que seus Balanços, por exemplo, uma vez acionados, se entregam a um moto aparentemente perpétuo. Mas tem, evidentemente, um surrealismo latente na história do cão que vira protagonista de reality show, ou nos movimentos de barata dos sete artistas pendurados na parede: um surrealismo de cinema, à Anjo Exterminador 2, referência submersa e talvez arbitrária, mas em todo caso plausível, para essas grades que se multiplicam e que contudo ninguém vê, para esse aprisionamento imperceptível que só se explicitava na instalação no Museu Vale do Rio Doce, onde uma porta quase invisível, repentinamente, se fechava, prendendo o visitante, exatamente como o limiar imaginário, inexplicável e intransponível que, no filme de Buñuel, mantém os aristocratas prisioneiros da mansão.

A maioria das obras de Raul Mourão nasce da colisão de formas e ideias, do atrito entre materiais e conceitos aparentemente incompatíveis: mesmo trabalhos formalmente quase minimalistas brotam desse esforço de acumulação. Pequenas esculturas, somadas a uma grande, formam um conjunto ou uma outra escultura, dizia o artista há alguns anos, quase descrevendo, ou prevendo, a obra Passagem, realizada em 2010, em que pequenas esculturas, Balanços, são somadas a uma grande Grade, que as envolve, sugerindo novas interpretações de cada um dos elementos. Vazios e saliências replicam na Grade as silhuetas dos Balanços, explicitando o parentesco entre os trabalhos, enquanto outras aberturas, que permitem a entrada dos visitantes, quase equiparam balanços e pessoas. Outras obras, como Surdo-Mudo, ou ainda a personagem de Cartoon, esmagada por uma imensa pedra-cubo de madeira, pertencem a esse mesmo universo, em que as coisas quase nunca chegam a conversar e fundir-se: apenas aproximam-se, ou então colidem. E desse choque nascem obras que são quase poesias visuais, em que o título é parte integrante da obra (…) como a definição do material, do tamanho ou da técnica . Ou nascem ideias, como aquela do Cego Só Bengala, em que o cego parece estar para a faca assim como a bengala está para a lâmina de João Cabral de Melo Neto , mas cuja razão de ser não é apenas (ou não diretamente) o universo poético, e sim, novamente, uma colisão imprevisível na cidade: a escolha desses personagens se dá porque eles vão esbarrando em nós todo o tempo. E esse “nós”, somos todos: visitantes, observadores, cidadãos, artistas: entendo que todo artista é cidadão , disse Raul Mourão, ou talvez todo cidadão seja artista, como dizia Beuys.

A precisão das formas das obras parece apontar para uma linhagem concreta, que se faz particularmente evidente nas séries de trabalhos que exploram e escancaram a geometria do campo de futebol, mas aparece também em obras como as pinturas que replicam placas de estrada ou sinais de trânsito, ou em Sem braços e sem cabeça, cujos personagens poderiam ser dois pluriobjetos de Willys de Castro que, cansados da imobilidade, tivessem decidido descer da parede e sair para conhecer o mundo. Onde essa filiação se faz mais evidente, contudo, é mesmo na série das Grades, e nos Balanços que constituem seu desdobramento quase natural: a inevitável animação de objetos tão cheios de vida, tão próximos da vida. Cada vez que alguém os aciona, os Balanços reencenam a transição do concretismo para o neoconcretismo, a aparição do movimento e da interação, a corrupção da reta, parafraseando novamente o poeta. À primeira vista, poderia parecer que essa corrupção, e a aparente impossibilidade de parar o movimento, contradigam o esmero dos acabamentos, a inflexibilidade das linhas, a retidão dos ângulos das obras de Raul Mourão. Mas a verdade é que não há contradição, tudo está imbricado, e é por isso também que não é possível falar de uma obra sem falar de todas as outras, e mesmo assim sabendo que a visão será parcial: seria preciso discutir o que o artista está fazendo, antes do que as obras que resultam desse fazer.

E, como não poderia deixar de ser, como a própria cidade da qual ele constrói, um pedaço de cada vez, o retrato mais inapreensível (e, portanto, mais fiel), Raul Mourão não para de fazer: concebe roteiros, alimenta seu blog, organiza encontros e trocas, publica revistas, abre e fecha espaços expositivos, ateliês e galerias, faz poemas falsamente despretensiosos e escreve textos sobre artistas. Inclusive compõe, por vezes, elogios surpreendentes, autênticas declarações de amor para uma arte que trilha o caminho da impermanência, do quase-invisível, do efêmero : todos aspectos aparentemente alheios ou até antitéticos ao seu fazer artístico, mas que, no fundo, não fazem mais do que revelar, de novo, o desejo de ver tudo, de entender tudo, de viver tudo. À luz disso, cabe imaginar que o próprio movimento incansável dos Balanços aponte, entre outras coisas, para essa opção de Raul Mourão pela potencialidade, aludindo a uma atitude aberta, programaticamente ambígua, em constante desequilíbrio. Aparentemente, os Balanços seriam o ensaio para algo maior , mas nada impede de pensar que eles sejam, ao mesmo tempo, o ensaio para algo menor, o prelúdio à abertura total ou talvez, até, à dissolução definitiva no mundo.