por André Sheik
Rio de Janeiro, novembro de 2005
Luladepelúcia é um trabalho corajoso. Fazer arte requer uma certa dose dessa qualidade, mas nem todos os trabalhos de arte trazem essa característica. Raul Mourão se arriscou e isso por si só já é muito bom. Fazer arte não é brincadeira, embora possa ser divertido e irônico em muitos casos. Olhar o presidente querido do Brasil feito um boneco suscita inúmeras metáforas e, como bom trabalho que é, Luladepelúcia carrega inúmeras delas e mais algumas que o próprio Raul provavelmente não pensou. Eu poderia citar diversas, no entanto, não quero restringir a interpretação do espectador. Mas vou dizer porque o acho um trabalho de coragem.
A representação de uma figura de poder não é novidade, seja na história da arte em encomendas de retratos, pinturas ou estátuas ou satirizada em charges de jornal. Lula não pediu para ser transformado em boneco sob nenhum aspecto e, até agora, nenhum publicitário encomendou a peça ao departamento de propaganda do governo ou a alguma agência que presta serviço ao mesmo com dinheiro transitando por caminhos subterrâneos, só que foi isso que acabou acontecendo: o presidente virou um boneco.
Essa provocação que o trabalho traz nos faz rir, não só da situação, como de nós mesmos, seja na vontade de espancar o boneco-presidente compartilhada entre alguns congressistas ou no desejo militante que alguns têm de dormir abraçados ao mesmo.
Os desenhos que também compõem a exposição, feitos com lápis sobre papel, foram executados mecanicamente com o uso de uma máquina de recort automatizada e alimentada com os estágios da construção digital em três dimensões do boneco e, apesar da aparência de uma impressão eletrônica, foram executados no contato do grafite com a superfície do papel e com poucas e pequenas interferências feitas posteriormente pela mão de Raul ou dos artistas convidados. São falsos desenhos verdadeiros, ou desenhos verdadeiros falsificados. Eles nos revelam o processso de construção do boneco-presidente e essa percepção pode ser útil na tentativa de compreensão de outras situações, artísticas ou não, inclusive as políticas.
Os artistas e seus trabalhos são reflexo da percepção da realidade que nos cerca e os corajosos não são oportunistas, antes sim, têm um olhar afiado sobre o mundo e os acontecimentos e transformam isso em arte inteligente, sensível e/ou bela, o que nem sempre é uma atividade gloriosa. Raul Mourão, com o seu luladepelúcia, vai, ludicamente, colher mel sem medo de sair picado.