por Piu Gomes
Brasília, outubro de 2005
Se você lembrou de Walter Benjamin e seu famoso ensaio que sacudiu o meio artístico e fez todos repensarem a produção cultural, não foi por acaso. A nova obra de Raul Mourão, Lula de Pelúcia, também parte do princípio da reprodução para causar reflexão. Mas se Benjamin questionava, entre outros aspectos, o valor da obra – não mais singular, e sim disseminada – e o princípio da autoria – numa escala de produção industrial, vêm à tona manifestações artísticas como o cinema, onde o autor deixa, talvez, de ser um só para se fazer coletivo – Raul Mourão mais uma vez se apropria de elementos cotidianos e urbanos para fazer da galeria um espaço lúdico, de sensações inusitadas, que teimam em acompanhar você mesmo depois da saída.
Mourão marca seu trabalho por um olhar carinhoso e ao mesmo tempo crítico da urbis que o cerca. Foi assim com a série Casinhas, que plantava intervenções em pontos inusitados da cidade; com os trabalhos de Futebol, que lançava a paixão nacional em geometrias familiares e incômodas, devido à estranheza dos materiais não-orgânicos que a representavam; e quiçá essa vertente tenha atingido seu ponto mais alto com a asfixia proporcionada por Grades, em que a galeria se tornava espelho e prisão do cidadão comum, sufocado sem consciência pela paisagem-conflito em que vive.
Mesmo quando essa ligação não é tão evidente, ela está lá. Em Cartoon tínhamos o universo do desenho animado, em Rua são reflexões similares às de um João do Rio. Em Lula de Pelúcia Raul Mourão dialoga com o maior ícone produzido pelo Brasil nos últimos tempos. E o faz de maneira afetuosa, pois ao representá-lo como um bonequinho de pelúcia imediatamente o remete para um recanto precioso da interpretação – o tempo perdido da infância, onde protegíamos nossos sonhos traduzidos por nossos brinquedos, ao mesmo tempo em que éramos protegidos por eles das agruras do mundo adulto.
Também vemos aí ecos da relação que se estabeleceu entre a figura política e a nação que o elegeu: nunca se acreditou tanto, nunca tivemos tanta certeza da mudança, nunca torcemos tanto para dar certo. Queríamos, sim, ter um Lula só pra gente, pra poder abraçar e dar carinho para aquele que representava uma nova época para um país tão carente de sonhos e esperanças. E Raul reflete isso enchendo uma parede inteira com seus presidentes de pelúcia – e aí Benjamin reaparece. Porque o impacto dessa imagem começa a desmontar seu próprio jogo de sedução.
Afinal, nos aproximamos e vamos procurar mínimas diferenças entre um e outro; nos afastamos e vamos tentar achar alguma mensagem escondida no desenho formado pelo conjunto; vemos tantos Lulas que começamos a nos perguntar se isso não seria uma bem-humorada crítica à super-exposição do nosso presidente na mídia. No cinema, a repetição de um mesmo plano coloca o espectador numa situação desconfortável, quando rompe o naturalismo imperioso ao qual ele está acostumado e desvenda o processo da construção artística. Do mesmo modo, Raul Mourão, ao multiplicar pela galeria um objeto tão doce e tão representativo dos nossos anseios de felicidade, inaugura a obra de arte na era da reprodutibilidade provocante. Você sai de lá considerando a possibilidade de recusar um bichinho daqueles, se por acaso te oferecessem um. Os últimos acontecimentos, mais o diálogo contido em Lula de Pelúcia, podem deixar um gosto um pouco amargo na boca. Um gosto assim, digamos, de amadurecimento.