por Marcelo Pereira
Rio de Janeiro, outubro de 2005
Luladepelucia foi imaginado por Raul Mourão no início do governo Lula. O Brasil vivia, naquele momento, um entusiasmo pela figura do novo mandatário. Tal entusiasmo, inédito na história recente do país, era expresso pelos mais humildes na confiança no presidente-operário; pelos intelectuais, na enfim chegada ao poder do símbolo maior de suas aspirações esquerdistas; e na imprensa, por um adesismo de primeira hora. Agora-a-coisa-vai.
Luladepelúcia era então um comentário irônico a tal estado de coisas. Seria um presidente-bibelô, um ursinho barbudo, uma coisa fofa para apertar, abraçar e dormir junto nos momentos de angústia. Um amuleto, por assim dizer.
Luladepelucia, no entanto, foi materializado por Raul Mourão no terceiro ano do governo Lula. O clima é outro. O presidente, seu governo e seu partido estão envolvidos numa sucessão de escândalos que aponta para o maior esquema de corrupção que já vimos. Lula já não é o aquele padim ciço de outrora. O rei está nu e o sonho acabou.
Luladepelúcia também sofreu mutações. A aquela ironia à adoração dos primeiros tempos, soma-se a ironia à própria passagem do tempo, potencializando a força da obra. Se repararmos bem, não é mais assim tão fofo. Pensamos duas vezes antes de querer abraçá-lo. Ali há algo de brinquedo-assassino em sua expressão não muito amigável, um gremlin segunda-fase em seus pelos eriçados. Um boneco de Dorian Gray.
Luladepelúcia reafirma a contundência do Raul Mourão de A Grande Área, Grades e Cão/Leão. Um soco no olho. Com ternura.