por Guilherme Bueno
Junho de 2004
Raul Mourão, artista convidado para a segunda edição dos Projetos Especiais do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, apresenta a exposição Drama.doc, uma série de fotografias de detalhes arquitetônicos, e um conjunto de esculturas realizadas com grades de ferro, similares àquelas de segurança instaladas em edifícios. Ao eleger essas coordenadas como protagonistas de sua investigação, o artista discute o objeto artístico, seja em sua concepção fundadora, ou na natureza de sua intencionalidade como propositor de um discurso.
Pensadas reciprocamente, entre as fotos e as esculturas infiltram-se diversos estratos da história da arte em sua problematização do espaço. O documento fotográfico é submetido a um processo de manipulação, no qual ruídos físicos e digitais criam uma nova imagem em descompasso com seu suposto referencial. Paradoxalmente, é essa foto mundana, essa imagem com cicatrizes, que será o ponto de partida para as esculturas, ao contrário do que em geral se poderia esperar da relação entre “original” e “cópia”. O ruído das fotos desloca-se para o espaço, implanta-se nele por meio das estruturas gradeadas das esculturas. Estabelece-se com isso um jogo duplo: a grade instiga e tenta, ao permitir que seja atravessada pelo olhar, oferecendo a este o que está além da superfície. Mas ela ao mesmo tempo e em igual intensidade o detém, mostra-o penosamente fadado a lutar contra a aceitação de uma contingência de seus limites.
Tomada a visualidade como ato afirmativo, o que se coloca, de certo modo, é um desafio histórico. Pois se a grade constituía o instrumento renascentista de vislumbre de uma ordem cósmica ( a perspectiva ) ou, no caso de um artista moderno como Mondrian, a expressão depurada rumo à libertação do sujeito no mundo através do olhar, aqui ela parece fazer retornar essa ansiedade em contramão: não é mais o objeto de atravessamento em direção a conteúdos puros, e sim a materialidade efetiva daquilo que nos cerca. Ela não deixa de evidenciar nem procura ocultar ser a mesma grade que envolve nossos edifícios, fazendo-nos crer protegidos da existência. Curiosamente essa “barreira provocativa”, esse objeto de perplexidade coloca o desafio de se absorverem as coisas sem temer sua complexidade, suas contradições e – por que não? – a possibilidade de estas oferecerem novas perspectivas poéticas, um outro reencantamento amoral do mundo.