Por Marco Veloso, Novembro de 1996
“I want to extend my art perhaps into something that doesn’t exist yet”, esta afirmação de uma conhecida escultora norte-americana diz quase tudo o que eu gostaria de colocar ao lado desta exposição de Raul Mourão. Sinceramente, vi muito pouco o que ele produziu, a não ser através de fotos, de desenhos e de alguns poucos papos que tivemos.
Mas, fica-me a impressão de alguém altamente comprometido com o que faz. Não quero dizer com isto que Raul seja um dos artistas que buscam identidade pela pseudo-seriedade com que encaram o mundo da arte. Ou, um daqueles que pelo cinismo, hoje em dia considerado uma postura inteligente, tentam definir o que é e o que não é arte. Bad aesthetic times.
Não pretendo esclarecer muita coisa do que direi. De certo modo, as esculturas de Raul também adotam essa atitude. Há, porém, um método quase que constante. Objetos da vida cotidiana são arrancados de seus contextos, delicadamente, por uma poética lançados no ambiente da arte, feitos em ferro e, então, agressivamente (?), inseridos numa linguagem artística quase nonsense. Pode ser uma trave de futebol, uma vassoura, um gaveteiro ou um guardanapo sobre um copo. Se todo aquele que faz arte caracteriza-se por um estilo, este misto de violência (?) e sensibilidade são assinatura de Raul. Mas, não há regras em arte e Raul talvez nem mesmo tenha estilo.
Raul é meio avesso a contextos, inclusive, ao contexto de seu próprio trabalho. Se o pluralismo atual teve por origem, como afirmam alguns, a Pop Art e o Minimalismo dos anos 60, penso que Raul estaria, aparentemente, mas do lado deste último grupo. O importante é que ele transita por diversos espaços, sem que se constitua pela identificação com um ou pelo somatório desses. O contemporâneo é um sujeito que vive e trabalha entre espaços (onde nada acontece), lugares, (onde as coisas se dão) e não-lugares (lugares fora do lugar, chamados supermodernos). Penso em um lugar que, ainda não exista.
“My art into something that doesn’t exist yet. Listen to your heart. Respect your intuition and your manifestation. There’s no limitation and no confusion. Have courage and rage. All together. I like Warhol’s idea of Pop: a means of liking things. We face the future without a narrative of present. The thing is to think of nothing. Au reste, cést l’homme, beaucoup plus que láuteur, que lón verra partout; Je parle éternellement de moi, et jén parlais en sûreté, puisque je ne comptais point publier mes Memories. We just say c’est la vie. Living in the post-historical period. Das Ende der Kunstgeschichte?”
Gosto muito do fato de que Raul valorize as idéias. Ele não te leva, simplesmente, para um atelier e te apresenta uma série de objetos, numa performance convincente. Ele fala de idéias. Eu não vi quase nada do que faz. Somente, uma trave com a altura cortada pela metade, há alguns anos no Paço Imperial. Ele também me mostrou um carimbo, onde se lê “Foda-se”. Acho estranho, mas, aos poucos, gosto. Um carimbo formalizando uma estranha ordem. Uma ordem que é mais uma desordem. Uma palavra-de-desordem. Um amigo diria, um brutalismo plástico verbal. Sei que Raul tem admiração por antropólogos artistas e por poetas chacais. As atitudes são as mesmas; faz-se o sublime do banal.
Aprecio, tremendamente, a elegância de diversos dos objetos que vi nas fotos que ele me mostrou. Violência (?) mais delicadeza, igual a elegância. Ele está distribuindo um livrinho sem páginas, só de capas. As quatro capas. Na segunda e na terceira, respectivamente, há uma foto de seu rosto com uma maçã equilibrada no topo da cabeça e, na outra, uma arma apontada nesta direção. Confesso que, a princípio, não gostei. Pareceu-me meio agressivo, gratuito e citacionista. De repente, percebi que, quando o livro está fechado, as duas imagens adormecem paralelas e o possível tiro, necessariamente, se transforma no próprio livro sem páginas, dormindo e viajando, como uma idéia viva. Aqui, Raul atravessou o rio e é quase-Pop. A maçã é um símbolo bíblico (Um livro-alvo?). A arma, um objeto de nosso mundo, excessivamente, real (Um alvo-livro?). O retrato, um auto-retrato sem retoques (A paz entre o alvo e o livro?).